
A perda gestacional pode provocar impactos significativos na saúde mental e exige atenção de profissionais de saúde, familiares e amigos, segundo especialistas. Embora tristeza, vazio e sofrimento sejam reações esperadas diante do luto, a persistência ou o agravamento dos sintomas pode indicar a necessidade de acompanhamento psicológico e psiquiátrico.
O alerta ganha destaque durante o Setembro Amarelo, campanha de conscientização sobre prevenção ao suicídio. A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) chama atenção para a necessidade de ampliar o acolhimento às mulheres que passam pela experiência.
A perda gestacional é uma interrupção involuntária da gravidez que pode ocorrer até a 20ª semana. De acordo com o obstetra Eduardo Felix Martins Santana, entre 15% e 20% das gestações não evoluem.
Para o médico, o apoio é fundamental para que a mulher não atravesse o período de luto sozinha.
“É um desafio passar por isso e é muito importante que a mulher não passe por isso sozinha”, afirma.
O obstetra Romulo Negrini, da Febrasgo, explica que a perda pode ser vivenciada como um evento traumático, independentemente do estágio da gestação.
Entre as possíveis reações estão tristeza profunda, sensação de vazio, culpa, ansiedade, dificuldade para dormir, irritabilidade e perda do interesse por atividades cotidianas.
Segundo o especialista, sofrer intensamente após uma perda não significa necessariamente que a mulher tenha desenvolvido uma doença psiquiátrica. O acompanhamento, porém, é importante para identificar situações em que o sofrimento ultrapassa o processo esperado de luto.
Além dos aspectos emocionais, alterações hormonais também podem contribuir para a piora do estado psicológico. A psiquiatra Andréa Cristina Galastri explica que os níveis hormonais associados à gestação sofrem uma queda após a perda, o que pode aumentar a sensibilidade emocional.
Esse processo pode durar cerca de 15 dias e se soma ao impacto psicológico provocado pela perda.
O sinal de alerta aparece quando o sofrimento começa a comprometer a rotina e permanece por um período prolongado.
De acordo com Galastri, sintomas como ansiedade intensa, depressão, perda de apetite, insônia, choro persistente, isolamento e sensação de fracasso merecem atenção. Pensamentos de que a vida perdeu o sentido também indicam uma situação mais grave.
“O sofrimento é esperado e é natural. Mas a paralisia da vida, não”, afirma a psiquiatra.
Quando há depressão ou um processo de luto considerado patológico, o tratamento pode envolver psicoterapia e, quando indicada por um profissional, medicação.
Para Santana, o cuidado deve começar ainda durante o atendimento médico e envolver também familiares e amigos.
A mulher pode passar por diferentes fases do luto, como negação, raiva e tristeza. Em todas elas, segundo o obstetra, o acolhimento é necessário.
O médico defende que profissionais e instituições de saúde sejam mais proativos na identificação de sinais de sofrimento psicológico. Segundo ele, esperar que a paciente volte ao consultório somente quando já estiver deprimida pode atrasar o atendimento.
“Se formos esperar a paciente retornar ao consultório quando já está deprimida, vamos perder muita gente”, afirma.
A publicitária Kalyane Ribeiro, de 34 anos, passou por uma perda gestacional aos 32 anos, depois de um ano e meio tentando engravidar. A experiência a levou a criar uma comunidade nas redes sociais para reunir mulheres que passaram por situações semelhantes.
Segundo ela, muitas mulheres encontram nesses espaços uma oportunidade para falar sobre a experiência e compartilhar sentimentos que nem sempre são compreendidos por familiares e amigos.
A comunidade também deu origem ao livro “Ainda me Sinto Mãe”, que reúne textos sobre experiências relacionadas à perda gestacional.
Kalyane afirma que, além do acompanhamento profissional, a troca com outras mulheres foi importante para atravessar o período de luto.
Pessoas que estejam enfrentando sofrimento intenso ou tenham pensamentos relacionados à própria morte devem procurar ajuda imediatamente. A rede de apoio pode incluir familiares, amigos e profissionais de saúde.
Entre os serviços disponíveis estão:
O CVV oferece apoio emocional gratuito e sob sigilo 24 horas por dia. O atendimento também pode ser realizado por chat, e-mail e outros canais disponibilizados pela instituição.
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