
Minas Gerais está entre os estados brasileiros com as menores taxas de notificação de potenciais doadores de órgãos. Dados de 2025 do Registro Brasileiro de Transplantes (RBT), da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), apontam que o Estado registrou 51 notificações por milhão de habitantes, abaixo da média nacional, de 74,7. O cenário ganha destaque durante o Setembro Verde, campanha de conscientização sobre a importância da doação de órgãos.
A notificação é uma das primeiras etapas do processo de doação. Ela ocorre dentro dos hospitais, quando equipes identificam pacientes que apresentam condições clínicas compatíveis com a possibilidade de doação. A partir dessa identificação, são realizados os procedimentos necessários para confirmar a morte encefálica e, posteriormente, a família é consultada sobre a autorização para a retirada dos órgãos.
Apesar da baixa taxa proporcional de notificações, Minas ocupa a segunda posição nacional em número absoluto de doações. Em 2025, foram registradas 985 doações no Estado. Em 2026, até 4 de setembro, já eram 631 procedimentos, segundo dados divulgados pela Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG).
O número de pacientes que aguardam por um transplante, porém, ainda é elevado. Segundo o Ministério da Saúde, 4.447 pessoas estão na fila em Minas Gerais. Para especialistas, ampliar a identificação de potenciais doadores nos hospitais é fundamental para aumentar o número de transplantes realizados e reduzir o tempo de espera dos pacientes.
O médico Agnaldo Soares Lima, coordenador do Centro de Transplante de Fígado da Santa Casa de Belo Horizonte e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), considera a notificação um dos principais pontos para ampliar as doações. Segundo ele, mesmo quando uma família recusa a doação ou existem contraindicações médicas, a identificação do potencial doador é importante para aumentar as oportunidades de transplante.
Em Minas, a taxa de recusa familiar é de 29,4%, abaixo da média nacional, de 45%. A recusa, no entanto, ocorre somente depois da identificação e notificação do potencial doador e não significa que o Estado tenha necessariamente uma maior quantidade de doadores efetivos.
Entre os desafios apontados para Minas estão a extensão territorial e a distribuição da população e da infraestrutura de saúde. Segundo o diretor do MG Transplantes, Omar Lopes Cançado, as grandes distâncias e a concentração de leitos e serviços especializados em determinadas regiões dificultam tanto a identificação quanto a logística necessária para a doação.
A Secretaria de Estado de Saúde reconhece a necessidade de ampliar as notificações e incluiu o objetivo no Plano Estadual de Doação e Transplantes (PEDT) 2025–2029. A estratégia prevê o fortalecimento das Comissões Intra-Hospitalares de Doação de Órgãos e Tecidos (CIHDOTTs) e das Equipes Hospitalares de Doação de Órgãos e Tecidos (E-DOTs), além da capacitação dos profissionais envolvidos no processo.
Para ampliar essa estrutura, a SES-MG prevê investimento anual de R$ 12,3 milhões na estratégia de expansão da doação e dos transplantes. Em 2026, 11 novas instituições foram incluídas na iniciativa, que também prevê acompanhamento de indicadores, incentivo financeiro vinculado ao desempenho e educação permanente das equipes.
A importância da doação também é reforçada por histórias como a de Djavan Yuri dos Santos, de 33 anos. Após ter o fígado comprometido por um câncer, ele recebeu um transplante em março deste ano. O procedimento mudou sua vida e fez com que ele passasse a valorizar ainda mais a importância da decisão de uma família em autorizar a doação.
A conscientização sobre o tema também será levada às ruas de Belo Horizonte. No dia 19 de setembro, o Hospital das Clínicas da UFMG promove uma caminhada pela doação de órgãos na Praça Carlos Chagas, a Praça da Assembleia, no bairro Santo Agostinho. O evento será gratuito e terá depoimentos de profissionais e pacientes transplantados, palestras, atividades de saúde e apresentações musicais.
O HC-UFMG tem papel histórico na área de transplantes em Minas. Em 1969, o hospital realizou o primeiro transplante de órgãos do Estado, com um transplante renal. Atualmente, a instituição é credenciada para transplantes de coração, rins, fígado, medula óssea, pulmão e córneas, todos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Outros três hospitais universitários federais mineiros também realizam transplantes: o HU-UFJF, o HC-UFU e o HC-UFTM.
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