
Uma investigação realizada pela organização Mercy For Animals (MFA) documentou o descarte de pintinhos machos recém-nascidos em um grande incubatório da indústria de ovos na Região Sul do Brasil. Segundo a entidade, cerca de 35 mil animais foram mortos em um único dia na unidade investigada, cujo nome não foi divulgado.
Os animais tinham menos de 24 horas de vida e eram separados das fêmeas logo após o nascimento. De acordo com a organização, os machos são descartados porque não produzem ovos e não possuem características genéticas consideradas adequadas para a produção de carne.
A investigação registrou o uso de equipamentos mecânicos para o descarte dos animais. A MFA afirma que, em alguns casos, o processo pode não resultar em morte imediata.
A organização também identificou o descarte de fêmeas em menor quantidade, principalmente quando apresentavam anomalias, deformidades, sangramentos, nascimento prematuro ou quando o número de animais ultrapassava a demanda dos criadores.
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Apesar dos avanços tecnológicos, a adoção da sexagem in ovo ainda é limitada no país. Segundo levantamento da Innovate Animal Ag, a máquina instalada no Brasil opera abaixo de sua capacidade.
O principal obstáculo apontado é o custo. A estimativa da organização é que o método convencional custe cerca de R$ 7 por ave no Brasil, enquanto a adoção da tecnologia pode acrescentar entre R$ 5 e R$ 10 por animal.
O custo adicional, entretanto, pode ser distribuído ao longo do período produtivo das aves. Segundo o estudo, uma galinha poedeira produz aproximadamente 350 ovos durante seu ciclo, o que reduz o impacto do investimento quando considerado o preço final de cada dúzia.
Empresas do setor também já manifestaram interesse em substituir a prática. Organizações de proteção animal citam compromissos públicos de empresas como Planalto Ovos, Grupo Mantiqueira e Korin para suspender a trituração, condicionando a mudança à disponibilidade de uma tecnologia considerada viável do ponto de vista econômico e operacional.
Em agosto, um encontro nacional sobre sexagem in ovo reuniu representantes de empresas de tecnologia, produtores, instituições financeiras e órgãos públicos, incluindo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).
Ainda não existe no Brasil uma legislação federal específica que proíba ou estabeleça regras próprias para o descarte de pintinhos machos na indústria de ovos.
O tema, porém, já tramita no Congresso Nacional. Entre as propostas está o Projeto de Lei 783/2024, de autoria da deputada Luciene Cavalcante (PSOL-SP), que passou pelas comissões de Meio Ambiente e de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados.
Segundo a Mercy For Animals, o projeto recebeu parecer contrário na Comissão de Agricultura por questões econômicas e deverá seguir para análise do plenário.
Outro texto, o PL 3034/2026, apresentado pela deputada Heloísa Helena (Rede-RJ) em junho deste ano, ainda está no início da tramitação.
A Constituição Federal proíbe práticas que submetam animais à crueldade, enquanto a legislação ambiental brasileira também prevê regras relacionadas a maus-tratos. A aplicação dessas normas ao caso específico, entretanto, depende da avaliação das autoridades competentes.
A Mercy For Animals informou que pretende encaminhar uma denúncia ao Ministério Público para que os órgãos responsáveis analisem as práticas registradas durante a investigação.
A discussão sobre o tratamento dado aos pintinhos também aparece em pesquisas sobre o comportamento dos consumidores.
Um levantamento da Innovate Animal Ag com 1.553 compradores de ovos no Brasil apontou que 73% dos entrevistados se sentem desconfortáveis com o abate de pintinhos machos. Outros 76% consideram que a indústria deveria buscar alternativas ao procedimento.
O estudo também indicou que 79% dos consumidores demonstraram interesse em comprar ovos produzidos com o uso da sexagem in ovo.
Entre os entrevistados, 76% afirmaram que estariam dispostos a pagar mais por esses produtos. A disposição média adicional apontada na pesquisa foi de R$ 3,87 por dúzia.
Para especialistas e organizações que acompanham o tema, a ampliação do acesso à informação pode aumentar a pressão sobre produtores e empresas para a adoção de métodos alternativos.
A investigação da Mercy For Animals reacende, assim, o debate sobre bem-estar animal na cadeia de produção de ovos e sobre os custos e desafios para substituir uma prática ainda utilizada no setor por tecnologias capazes de evitar o nascimento e posterior descarte dos pintinhos machos.
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