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Amazônia abriga mais de 2,7 mil espécies de peixes, aponta estudo

Bacia Amazônica concentra cerca de 15% das espécies de peixes de água doce conhecidas no mundo, mas biodiversidade sofre pressão de barragens, desmatamento, poluição e mudanças climáticas

08/09/2026 às 11h13
Por: Cristiane Cirilo
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A Bacia Amazônica abriga mais de 2,7 mil espécies de peixes de água doce, o equivalente a cerca de 15% de todas as espécies conhecidas no mundo. Aproximadamente dois terços desses peixes são encontrados exclusivamente na região.

Os dados fazem parte da quarta edição do relatório “Peixes Esquecidos da Amazônia”, elaborado pela The Nature Conservancy (TNC) com participação de mais de 50 especialistas de 30 organizações.

O levantamento aponta que a Amazônia ainda reúne uma das maiores oportunidades do mundo para preservar a biodiversidade de água doce antes que a degradação dos rios exija processos de restauração mais complexos e caros.

Segundo Fernanda Silva, cientista da TNC e autora principal do estudo, a região tem a possibilidade de conservar grandes sistemas de rios conectados enquanto eles ainda permanecem em funcionamento.

O relatório combina dados científicos com conhecimentos ecológicos tradicionais e destaca que os peixes têm papel fundamental não apenas nos ecossistemas, mas também na alimentação, na cultura e na economia das populações amazônicas.

Peixes ajudam a manter a floresta

Os peixes são considerados importantes indicadores da saúde dos rios e também participam diretamente do funcionamento da floresta.

Tambaquis, pacus e matrinxãs, por exemplo, entram em áreas de floresta alagada para se alimentar de frutos e podem transportar sementes por longas distâncias. Outras espécies levam nutrientes e energia entre os ambientes aquáticos e terrestres.

A redução dessas populações pode provocar impactos em cadeia sobre a vegetação e sobre animais que dependem dos peixes, como botos, ariranhas e aves.

A conectividade dos rios também é essencial para espécies migratórias. A dourada, uma das espécies analisadas pelo estudo, realiza a mais longa migração exclusivamente em água doce já registrada. Um único exemplar pode percorrer mais de 11 mil quilômetros durante o ciclo de vida, ligando áreas próximas aos Andes ao estuário do Amazonas.

No rio Madeira, barragens interromperam antigas rotas migratórias da espécie e contribuíram para a redução dos estoques de peixes e para o desaparecimento, na prática, de uma atividade pesqueira histórica na região da Cachoeira do Teotônio.

Biodiversidade sofre pressão

Apesar da grande diversidade, o estudo aponta que ainda existem lacunas significativas no conhecimento sobre as espécies amazônicas.

A Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) registra 144 espécies ameaçadas na região. Outras 334 aparecem na categoria de Dados Insuficientes, o que significa que não há informações suficientes para avaliar adequadamente o risco de extinção.

Entre as principais ameaças estão a construção de hidrelétricas, o desmatamento, a poluição e a pesca excessiva. Esses fatores podem fragmentar habitats, alterar o fluxo natural dos rios e comprometer a qualidade da água.

As mudanças climáticas podem agravar o problema. Projeções reunidas no relatório indicam que a descarga anual dos rios pode cair mais de 40% em algumas áreas importantes, como as cabeceiras do rio Madeira.

Secas prolongadas podem afetar a reprodução e a migração dos peixes, diminuir a quantidade de oxigênio na água e favorecer a concentração de contaminantes. Na região dos Andes, o aumento das temperaturas também ameaça espécies endêmicas adaptadas a águas frias.

O garimpo é outra fonte de pressão. De acordo com o levantamento, a mineração não industrial de ouro responde por 83% das emissões de mercúrio provocadas por atividades humanas na América do Sul.

O mercúrio pode se acumular na cadeia alimentar, e o consumo de pescado é apontado como a principal forma de exposição da população ao contaminante na Amazônia.

Pesca é essencial para alimentação e economia

A preservação dos rios também tem impacto direto sobre as comunidades que vivem na região.

Em algumas comunidades ribeirinhas remotas, o consumo de pescado supera 600 gramas por pessoa por dia. O peixe está entre as principais fontes de proteína animal para famílias de baixa renda e fornece nutrientes importantes para a alimentação.

A pesca também movimenta a economia amazônica. Pelo menos 200 espécies são capturadas comercialmente, enquanto a pesca ornamental exporta dezenas de milhões de exemplares todos os anos e sustenta milhares de famílias.

O relatório destaca ainda a participação das mulheres em diferentes etapas da cadeia produtiva e em organizações comunitárias.

Comunidades indígenas participam da conservação

O conhecimento de povos indígenas e comunidades tradicionais também é apontado como fundamental para a preservação dos rios.

Segundo o relatório, práticas locais de manejo e governança contribuem para proteger os ambientes aquáticos e manter a conectividade dos rios diante das pressões ambientais.

O estudo identificou pelo menos 155 iniciativas de manejo comunitário da pesca no Brasil, Peru, Bolívia e Colômbia. As ações abrangem quase 13 milhões de hectares e envolvem mais de 1,2 mil comunidades e 21 mil pescadores.

De acordo com o levantamento, essas experiências estão associadas ao aumento da abundância de peixes e da diversidade de espécies, além de benefícios econômicos e sociais.

Entre as medidas defendidas pelo relatório estão a proteção de rios de fluxo livre, a recuperação dos regimes naturais de vazão, a restauração de habitats e espécies, a melhoria da qualidade da água e o controle da expansão de espécies não nativas.

Como rios, peixes, sedimentos e nutrientes atravessam fronteiras nacionais, os pesquisadores defendem uma estratégia de conservação coordenada em toda a Bacia Amazônica, com participação efetiva de povos indígenas e comunidades tradicionais na gestão dos recursos hídricos.

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