
O governo federal deve definir nos próximos dias novas medidas para enfrentar o mercado de apostas eletrônicas no Brasil, após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ouvir na terça-feira (1º) representantes da sociedade civil sobre os impactos das chamadas bets.
Durante reunião no Palácio do Planalto, Lula afirmou que pretende convocar uma nova reunião ainda nesta semana para discutir uma decisão sobre o setor. O presidente também voltou a classificar as apostas como um problema para a sociedade e admitiu a possibilidade de adotar medidas mais rígidas.
“O governo tem discutido como resolver o problema das bets. Eu sugeri ouvirmos o que a sociedade brasileira pensa sobre as bets antes de tomarmos uma solução definitiva”, afirmou Lula.
Segundo o presidente, o governo tentou regulamentar o setor, mas enfrenta dificuldades para combater plataformas clandestinas.
“Acho que temos que tomar a decisão mais drástica. A gente tentou regular, tentou proibir. Mas proibir 60 mil bets clandestinas não é fácil”, disse.
Participaram da reunião representantes de entidades ligadas à proteção de crianças, saúde, comércio, economia e setor artístico. Ministros de diferentes áreas também acompanharam a discussão.
Entre os relatos apresentados ao governo estavam casos de endividamento de famílias associados às apostas. Um dos participantes relatou a situação de um pai preocupado com a filha, que teria contraído dívida com um agiota após perder dinheiro em plataformas de apostas.
Representantes do comércio também apontaram aumento da inadimplência relacionado ao uso de recursos para apostas, com possíveis efeitos sobre o consumo e a atividade econômica. Outra sugestão apresentada foi a criação de uma secretaria extraordinária para combater plataformas ilegais.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, apresentou dados sobre a procura por atendimento de pessoas com problemas relacionados à dependência em apostas.
De acordo com o ministro, o governo havia estimado inicialmente uma demanda de cerca de 600 atendimentos mensais, mas o número teria chegado a aproximadamente 100 mil por mês.
Padilha afirmou ainda que 55% das pessoas que procuram atendimento são mulheres, embora os homens representem a maioria entre os usuários de apostas.
O governo disponibiliza atendimento por meio do SUS Digital, plataforma que permite solicitar assistência e iniciar um plano terapêutico para pessoas que enfrentam problemas relacionados às apostas.
Segundo Padilha, Brasil, Espanha e Canadá também participam de uma iniciativa que discute uma proposta de resolução sobre o tema na Organização Mundial da Saúde (OMS).
A preocupação do governo também está relacionada ao impacto financeiro das apostas sobre as famílias.
Dados apresentados recentemente pelo governo apontam que as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para as bets em 2025. O cálculo considera a diferença entre o total apostado e o valor devolvido aos usuários em prêmios.
Entre outubro de 2024 e março de 2026, as perdas representaram uma média de aproximadamente R$ 4,7 bilhões por mês. No mesmo período, as plataformas movimentaram quase R$ 351 bilhões em transações realizadas via Pix.
Para Lula, qualquer decisão sobre o setor precisa considerar os impactos sociais, econômicos e políticos. Apesar de defender o fim das apostas, o presidente afirmou que, no cargo, precisa avaliar as consequências de uma eventual mudança mais radical.
O governo ainda não detalhou quais medidas poderão ser adotadas nem se a discussão poderá resultar em novas restrições às plataformas legalizadas ou em ações voltadas principalmente ao combate às bets clandestinas.
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