
O Brasil deu um passo importante no desenvolvimento de uma vacina contra a malária causada pelo parasita Plasmodium vivax, responsável pela maioria dos casos da doença no país. A candidata a imunizante, chamada Vivaxin, recebeu autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar os testes em humanos. O anúncio foi apresentado no sábado (10/10), durante visita do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, ao Centro de Tecnologia de Vacinas (CTVacinas), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte.
A autorização da Anvisa foi concedida em 7 de outubro e permite o início da primeira fase de avaliação clínica. A Vivaxin foi desenvolvida pelo CTVacinas em colaboração com a Universidade de São Paulo (USP) e o laboratório farmacêutico Cristália. A tecnologia é resultado de pesquisa nacional e conta com apoio de instituições públicas de fomento. O Ministério da Saúde prevê investimento de R$ 12 milhões para apoiar os ensaios clínicos das fases I, II e III.
A fase I deverá reunir 48 voluntários saudáveis, com idades entre 18 e 59 anos, sem histórico de infecção por malária. O objetivo é avaliar a segurança do imunizante, possíveis reações à aplicação e sua capacidade de estimular uma resposta do sistema imunológico. O protocolo prevê diferentes dosagens, grupos que receberão a candidata a vacina ou placebo e três aplicações com intervalo de 28 dias. O acompanhamento dos participantes está previsto para durar 360 dias.
A autorização para os testes representa um avanço científico, mas não significa que a vacina já esteja disponível para a população. Os resultados da primeira fase deverão orientar as etapas seguintes, necessárias para ampliar a avaliação da segurança e investigar a eficácia na prevenção da doença. Até o momento, não há vacina aprovada para uso populacional especificamente contra o Plasmodium vivax. Os imunizantes contra a malária recomendados internacionalmente foram desenvolvidos para outra espécie do parasita, o Plasmodium falciparum, predominante em grande parte da África.
Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde, o Brasil registrou 118.037 casos de malária em 2025. A doença continua sendo um desafio de saúde pública, especialmente na Região Amazônica. A infecção pode provocar febre, calafrios, dor de cabeça e outros sintomas, além de evoluir para quadros graves quando não diagnosticada e tratada adequadamente. O desenvolvimento de uma vacina específica para o P. vivax poderá ampliar as ferramentas de prevenção, caso as próximas etapas de pesquisa confirmem sua segurança e eficácia.
O CTVacinas integra a estrutura científica da UFMG voltada ao desenvolvimento de vacinas, diagnósticos e outras tecnologias para a saúde. De acordo com o Ministério da Saúde, estão previstos R$ 161,5 milhões para projetos de inovação conduzidos pelo centro ou em parceria, por meio do Programa de Desenvolvimento e Inovação Local (PDIL), dos quais R$ 135,5 milhões são destinados a projetos da própria unidade. Entre as iniciativas estão pesquisas para vacinas terapêuticas contra a doença de Chagas, imunizantes contra mpox e covid-19 e testes para diagnóstico de malária e leishmaniose.
A instituição também participa do Centro de Competência em Terapias e Vacinas com RNA (CTV-RNA), iniciativa desenvolvida em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii). O projeto prevê R$ 60 milhões ao longo de quatro anos para ampliar a capacidade brasileira em tecnologias de RNA, que permitem desenvolver imunizantes e tratamentos com instruções genéticas voltadas a estimular respostas do organismo.
Durante a agenda do ministro, também foi firmado um acordo entre a Hemobrás, a Embrapii, a FarmaVax - unidade de inovação em fármacos e vacinas ligada à UFMG - e a Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (Fundep). Com investimento de R$ 5 milhões e duração prevista de 12 meses, o projeto busca desenvolver terapias genéticas para as hemofilias A e B, utilizando sistemas de entrega baseados em nanopartículas. A iniciativa integra os esforços para ampliar a capacidade nacional de pesquisa e produção de medicamentos biológicos estratégicos para o Sistema Único de Saúde (SUS).
A visita de Alexandre Padilha incluiu ainda o Hospital Santa Rita, em Contagem, referência regional em atendimentos cardiovasculares de alta complexidade. A unidade oferece procedimentos como cateterismo, angioplastia, ablação de arritmias e implante de marcapasso, além de suporte cardiológico 24 horas. Entre 2023 e 2026, o hospital contabilizou 20.778 atendimentos e internações pelo SUS, sendo 8.750 em 2026. A estrutura possui 163 leitos, dos quais 62 são destinados à rede pública.
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