
Trinta anos após sua morte, Renato Russo continua entre os nomes mais lembrados da música brasileira. O cantor e compositor morreu em 11 de outubro de 1996, no Rio de Janeiro, aos 36 anos. À frente da Legião Urbana, tornou-se uma das principais vozes do rock nacional das décadas de 1980 e 1990, com canções que abordavam os conflitos da juventude, as relações afetivas, as desigualdades sociais e a política. Suas letras seguem presentes na memória de diferentes gerações.
Nascido Renato Manfredini Júnior, em 27 de março de 1960, no Rio de Janeiro, ele passou parte da infância nos Estados Unidos e viveu em Brasília durante a adolescência. Foi na capital federal que se aproximou do movimento punk e começou a construir sua trajetória musical. Em 1978, fundou o Aborto Elétrico, grupo que ajudou a formar a cena do rock brasiliense e serviu de origem para músicas que seriam gravadas posteriormente pela Legião Urbana e pelo Capital Inicial.
Em 1982, Renato se uniu ao baterista Marcelo Bonfá para criar a Legião Urbana. A formação que se consolidou nos primeiros anos também contou com o guitarrista Dado Villa-Lobos e o baixista Renato Rocha, conhecido como Negrete. O primeiro álbum, lançado em 1985, apresentou músicas como “Será”, “Ainda É Cedo” e “Geração Coca-Cola”, que ajudaram a projetar o grupo nacionalmente. A banda se destacou pela combinação de guitarras do rock com letras que dialogavam diretamente com a realidade brasileira.
O sucesso cresceu com discos como Dois (1986), Que País É Este 1978/1987 (1987) e As Quatro Estações (1989). Desse período vieram clássicos como “Tempo Perdido”, “Eduardo e Mônica”, “Índios”, “Faroeste Caboclo”, “Que País É Este” e “Pais e Filhos”. As canções abordavam desde histórias de amor e amadurecimento até violência, desigualdade e questionamentos sobre o país. Renato ficou conhecido pela escrita narrativa e pela capacidade de transformar dilemas individuais em temas coletivos.
As parcerias foram fundamentais para a trajetória do artista. Com Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos, construiu a identidade musical da Legião Urbana, enquanto outros integrantes e colaboradores participaram de composições, arranjos e gravações. Antes da fama, o Aborto Elétrico também deixou uma herança importante: músicas como “Fátima” e “Veraneio Vascaína” foram gravadas pelo Capital Inicial, enquanto “Química” entrou no repertório dos Paralamas do Sucesso. A ligação entre os grupos ajudou a consolidar o rock produzido em Brasília como uma força da música nacional.
Renato também desenvolveu uma carreira solo. Em 1994, lançou The Stonewall Celebration Concert, com repertório ligado à diversidade e à liberdade, e, em 1995, apresentou Equilíbrio Distante, no qual interpretou canções italianas e homenageou suas raízes familiares. Entre suas colaborações está “1º de Julho”, composta para Cássia Eller, que gravou a música durante a gravidez. A obra de Renato também ganhou novos arranjos e interpretações em projetos de outros artistas após sua morte.
A saúde do cantor se deteriorou nos últimos anos de vida. Renato havia descoberto que era portador do HIV em 1990, mas manteve o diagnóstico reservado. Sua morte é amplamente associada à Aids em registros biográficos e históricos. Entretanto, a irmã do músico, Carmen Manfredini, contestou publicamente essa versão como causa direta da morte e afirmou, em entrevista à Rádio Senado em 2016, que ele enfrentava um quadro de depressão profunda. Por isso, a causa da morte exige cuidado ao distinguir o registro histórico mais difundido das declarações da família.
Mesmo debilitado, Renato continuou trabalhando com a Legião Urbana. Em 1996, a banda lançou A Tempestade ou O Livro dos Dias, álbum marcado por letras introspectivas e pelo clima de despedida. Depois de sua morte, o material remanescente deu origem a Uma Outra Estação, lançado em 1997. A produção póstuma manteve viva a presença do compositor e apresentou ao público canções que ampliaram a compreensão de seus últimos anos de criação.
Três décadas depois, músicas como “Pais e Filhos”, “Tempo Perdido”, “Será” e “Faroeste Caboclo” continuam nas rádios, nos serviços de streaming e nos repertórios de artistas brasileiros. Mais do que um vocalista de rock, Renato Russo tornou-se um cronista de sentimentos e contradições de seu tempo. Seu legado permanece na força das letras, na influência sobre novos músicos e na identificação de ouvintes que encontram nas canções da Legião Urbana perguntas, angústias e esperanças que atravessam gerações.
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