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Pedidos de recuperação judicial crescem 25% em Minas, com agronegócio liderando casos

Estado soma 394 empresas em recuperação judicial ao fim de 2025; juros elevados, crédito restrito e custos financeiros pressionam empresas, especialmente do setor agropecuário

20/02/2026 às 18h50
Por: Cristiane Cirilo
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CNN | reprodução
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O número de empresas com pedidos de recuperação judicial aceitos em Minas Gerais chegou a 394 ao fim de 2025, representando um crescimento de 25% em relação a 2024, quando 313 companhias estavam em processo de reestruturação de dívidas no Estado. Os dados constam no Relatório do Monitor RGF de Recuperação Judicial do quarto trimestre de 2025, elaborado pela consultoria RGF com base em informações oficiais da Receita Federal.

O avanço em Minas supera a média nacional. No Brasil, o número de empresas em recuperação judicial cresceu 19,5% no mesmo período, passando de 4.568 no quarto trimestre de 2024 para 5.680 em 2025.

De acordo com o sócio e especialista em reestruturação da RGF, Rodrigo Gallegos, o aumento reflete um cenário econômico adverso prolongado, marcado por custo financeiro elevado, margens comprimidas e dificuldades de alongamento de passivos. Segundo ele, o resultado foi um recorde de entradas em recuperação judicial no país e um ambiente ainda mais desafiador para a obtenção de fôlego financeiro pelas empresas.

Quando analisados por setor, os dados mostram que o agronegócio é o segmento mais vulnerável em Minas Gerais. Das 3.772 empresas em atividade no setor, 36 estão em recuperação judicial, o que representa um índice relativo de 9,54%: o maior entre todos os segmentos econômicos do Estado.

Gallegos destaca que o dado reforça a fragilidade do setor, pressionado por adversidades climáticas, oscilações de preços e restrição de crédito. Segundo ele, o cenário não é exclusivo de Minas: no Brasil, o agronegócio também lidera o índice de recuperações judiciais, com 13,5%.

A advogada tributarista Polyany Cunha avalia que o ambiente macroeconômico mais restritivo tem impacto direto sobre o setor, que depende fortemente de financiamento, opera com ciclos longos de retorno e margens sensíveis a fatores climáticos e ao mercado de commodities. Para ela, o movimento não indica colapso produtivo, mas um processo de ajuste financeiro após anos de expansão alavancada.

Na sequência do agronegócio, aparecem a indústria, com índice relativo de 5,82%, o comércio, com 1,67%, a construção civil e o setor de energia, ambos com 1,35%, e o setor de serviços, com 1,02%.

Apesar de apresentar um índice proporcional menor, o setor de serviços registrou o maior crescimento em números absolutos no trimestre, com dez novas empresas entrando em recuperação judicial em relação ao relatório anterior.

O levantamento também aponta que o crescimento em Minas não se concentrou em apenas um segmento. Um destaque específico foi o aumento de holdings de instituições não financeiras em recuperação judicial: empresas voltadas à proteção patrimonial, planejamento sucessório e eficiência tributária. Das 394 empresas em recuperação no Estado, 27 são holdings desse tipo. Em 2024, eram 20.

Segundo Polyany Cunha, muitas dessas estruturas passaram a concentrar garantias e dívidas dos grupos econômicos, tornando-se o centro do risco financeiro. Com a redução da liquidez, estruturas sem geração própria de caixa ficaram mais expostas, além da mudança no uso da recuperação judicial, hoje vista também como instrumento de reorganização e negociação de passivos, e não apenas como etapa pré-falimentar.

O relatório da RGF aponta como principais fatores de pressão a taxa Selic em 15% ao ano, a postura mais conservadora do sistema financeiro e a volatilidade cambial. Os juros elevados aumentaram o custo da dívida e pressionaram o capital de giro, efeito intensificado por fatores sazonais do quarto trimestre, como pagamentos concentrados, ajustes de estoque e renegociações de passivos de curto prazo.

Além disso, o sistema financeiro manteve uma postura mais defensiva, com restrição de crédito e priorização de operações com garantias reais. A proximidade do período eleitoral também contribuiu para o aumento das incertezas e para a redução da oferta de financiamento.

No cenário externo, a volatilidade do dólar afetou empresas com exposição a insumos importados e dívidas em moeda estrangeira, enquanto a instabilidade da demanda internacional e medidas comerciais ao longo do ano pressionaram margens e limitaram a geração de caixa.

O conjunto desses fatores, segundo especialistas, cria um ambiente de alto risco financeiro e explica a escalada dos pedidos de recuperação judicial em Minas Gerais, com tendência de manutenção do cenário desafiador ao longo de 2026.

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