17°C 30°C
Belo Horizonte, MG
Publicidade

Banco do Brasil entra em alerta com alta da inadimplência após calote bilionário e crise no agro

Mesmo com lucro de R$ 20,7 bilhões em 2025, banco vê avanço dos atrasos nos pagamentos, impulsionados por um calote de R$ 3,6 bilhões e pela deterioração do crédito no agronegócio

14/02/2026 às 09h55
Por: Cristiane Cirilo
Compartilhe:
Foto: Marcelo Brandt/G1
Foto: Marcelo Brandt/G1

Mesmo encerrando 2025 com lucro líquido de R$ 20,7 bilhões, o Banco do Brasil passou a ser observado com maior cautela pelo mercado financeiro diante do avanço da inadimplência. O alerta se intensificou após a divulgação de um calote de R$ 3,6 bilhões no balanço do quarto trimestre, atribuído a uma única empresa, episódio que evidenciou um cenário mais amplo de deterioração do crédito no país.

De acordo com o banco, a operação entrou em atraso no fim de 2025 durante um processo de negociação, foi regularizada em janeiro de 2026 e posteriormente cedida a terceiros. Ainda assim, o caso expôs o impacto de um ambiente marcado por juros elevados e dificuldades de liquidez, que vêm pressionando a capacidade de pagamento de empresas e produtores.

O índice de inadimplência acima de 90 dias atingiu 5,17% no quarto trimestre de 2025, ante 4,51% no trimestre anterior e 3,16% no mesmo período de 2024. Sem o efeito do calote específico, a taxa teria ficado em 4,88%. Mesmo assim, o Banco do Brasil passou a liderar a inadimplência entre os grandes bancos tradicionais, superando Itaú Unibanco (2,4%), Santander Brasil (3,7%) e Bradesco (4,1%), ficando atrás apenas do Nubank, que registrava 6,6% no segundo trimestre.

O principal fator de pressão é o agronegócio. A inadimplência no segmento rural chegou a 6,1% no quarto trimestre, refletindo perdas provocadas por eventos climáticos extremos, aumento do endividamento dos produtores e restrição de crédito. O Banco do Brasil, maior financiador do setor no país, concentra quase metade do crédito destinado ao agro, com uma carteira de R$ 406,1 bilhões em dezembro de 2025 — o equivalente a 31,3% do total da instituição.

No mesmo período, o agronegócio também passou a liderar os indicadores de recuperação judicial no país, com crescimento acelerado de empresas em situação de insolvência, especialmente no cultivo de soja e em cadeias produtivas fortemente dependentes de financiamento bancário.

O cenário resultou em aumento expressivo das provisões para perdas, que somaram R$ 10,5 bilhões apenas no agronegócio no quarto trimestre. Para conter o avanço da inadimplência, o banco lançou o programa BB Regulariza Dívidas Agro, que permite a renegociação de débitos com prazos de até nove anos. Até dezembro, R$ 22,6 bilhões já haviam sido renegociados com mais de 15 mil produtores.

Analistas avaliam que a recuperação será lenta. O BTG Pactual projeta normalização gradual da inadimplência no setor rural, enquanto o próprio Banco do Brasil estima crescimento quase estável da carteira agro em 2026, entre -2% e +2%.

Para especialistas, o episódio não representa risco sistêmico imediato, mas reforça a necessidade de atenção redobrada à qualidade do crédito. A leitura predominante no mercado é de ajuste estrutural após anos de forte expansão, em um ambiente ainda pressionado por juros altos, crédito restrito e endividamento elevado.

Após a divulgação do resultado, as ações do Banco do Brasil chegaram a subir mais de 8% na Bolsa, mas passaram a operar em queda no dia seguinte, refletindo a cautela dos investidores diante do novo cenário de risco.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.