
Duas brasileiras foram reconhecidas internacionalmente pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) por suas contribuições à pesca artesanal, à segurança alimentar e ao fortalecimento de comunidades rurais. Joana Rodrigues Mousinho, de Pernambuco, e Luena Maria Ferreira dos Santos, conhecida como Luena Pataxó, da Bahia, integram a lista das 100 mulheres homenageadas pela iniciativa global da organização.
As duas foram indicadas pelo Ministério das Mulheres e receberam o reconhecimento em uma cerimônia realizada na quinta-feira (15), na sede da FAO, em Roma, na Itália. A homenagem ocorreu durante o Fórum Mundial da Alimentação e no contexto do Ano Internacional da Mulher Agricultora 2026.
A iniciativa recebeu mais de 600 indicações de 131 países e selecionou mulheres cujas trajetórias contribuem para a inclusão social, a geração de renda, a sustentabilidade ambiental e a melhoria das condições de vida em comunidades rurais.
Joana e Luena integram o Fórum de Políticas Públicas de Autonomia Econômica e Cuidado com Mulheres da Pesca, Aquicultura Artesanal e Marisqueiras do Brasil.
Aos 70 anos, Joana Mousinho é uma das referências da pesca artesanal no Brasil. Natural de Pernambuco, ela começou a pescar ainda na infância e trabalha há mais de seis décadas no Canal de Santa Cruz, em Itapissuma, onde captura peixes, camarões, mariscos e siris. A produção é comercializada diretamente por ela.
Joana foi uma das primeiras mulheres do país a obter o Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP) e a primeira mulher a presidir uma colônia de pescadores. Também participou da fundação da Articulação Nacional das Pescadoras, movimento que atua na defesa dos direitos e na ampliação da visibilidade das mulheres que vivem da atividade.
Em 2024, ela recebeu o Prêmio Mulheres das Águas, concedido pelo Ministério da Pesca e Aquicultura, na categoria Pesca Artesanal em Águas Marinhas.
Ao longo da carreira, Joana também passou a atuar na defesa dos territórios costeiros e do reconhecimento profissional das pescadoras.
“Este reconhecimento da FAO incentiva as mulheres a lutar e a participar cada vez mais dos espaços de decisão, porque vemos que estamos ganhando visibilidade. Foi uma conquista, minha comunidade está muito feliz e agradecida”, afirmou.
Luena Pataxó, de 44 anos, é uma liderança indígena da etnia Pataxó e preside a Associação dos Pescadores Indígenas Pataxó (Apip), no distrito de Coroa Vermelha, em Santa Cruz Cabrália, no sul da Bahia.
Ela também está à frente do Comitê de Relacionamento de Pescadores do extremo sul baiano, que reúne representantes de oito municípios e 13 associações.
Sua atuação envolve o fortalecimento econômico das famílias que vivem da pesca artesanal, a valorização da cultura indígena e a busca por melhores condições de trabalho. Sob sua liderança, a associação conquistou melhorias para os pescadores locais e desenvolveu iniciativas relacionadas à segurança no mar e à geração de renda, especialmente para famílias que trabalham com a pesca de camarão.
Luena também foi premiada pelo Sebrae na categoria Produtora Rural, com o primeiro lugar na etapa estadual e o terceiro na nacional do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios.
Ao receber a homenagem internacional, ela destacou que representa a comunidade indígena e a luta coletiva dos pescadores.
“É uma honra ter o reconhecimento internacional da luta do meu povo indígena, que não é de hoje, e é diária. A homenagem não é para mim, estou representando a minha comunidade. Carrego comigo minha raiz e meus parentes indígenas. Somos os guardiões do meio ambiente”, afirmou.
Ela também ressaltou a relação entre a atividade pesqueira e a preservação ambiental. “A pesca artesanal é uma atividade que respeita a natureza – os ventos, os mares, a lua. Eles nos dizem quando é hora de parar”, disse.
A iniciativa da FAO busca dar visibilidade a mulheres que contribuem para transformar os sistemas agroalimentares e promover o desenvolvimento rural. As homenageadas atuam em áreas como agricultura, pesca, aquicultura, empreendedorismo, ciência, inovação e preservação ambiental.
Segundo a organização, as mulheres representam cerca de 41% da força de trabalho mundial nos sistemas agroalimentares. Apesar da participação expressiva em diferentes etapas da produção e da comercialização de alimentos, elas ainda enfrentam condições precárias de trabalho e limitações no acesso a direitos e oportunidades.
Para a FAO, ampliar os direitos e as oportunidades das mulheres é parte das estratégias para fortalecer a segurança alimentar, aumentar a renda das famílias e tornar as comunidades mais resilientes.
O representante da FAO no Brasil, Jorge Meza, afirmou que o reconhecimento das duas brasileiras destaca tanto suas realizações individuais quanto a contribuição das mulheres para a produção de alimentos, a conservação dos recursos naturais e a preservação de conhecimentos tradicionais.
A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, também destacou a importância de dar visibilidade às pescadoras artesanais e ampliar a participação delas nas decisões sobre políticas públicas que afetam suas atividades e comunidades.
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