
Há 34 anos, em 12 de outubro de 1992, o Brasil perdia um dos principais nomes da luta pela redemocratização. Ulysses Guimarães, advogado, deputado federal e presidente da Assembleia Nacional Constituinte, desapareceu após a queda do helicóptero em que viajava no litoral entre o Rio de Janeiro e São Paulo. Seu corpo nunca foi encontrado. A morte marcou o fim de uma trajetória política de mais de quatro décadas, associada à defesa das instituições democráticas e à elaboração da Constituição Federal de 1988.
Nascido em 6 de outubro de 1916, em Rio Claro, no interior paulista, Ulysses formou-se em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e iniciou sua trajetória política na década de 1940. Em 1947, foi eleito deputado estadual constituinte em São Paulo. Três anos depois, chegou à Câmara dos Deputados, onde exerceu 11 mandatos consecutivos e se tornou uma das figuras mais influentes do Congresso Nacional.
No início, Ulysses apoiou o movimento militar que depôs o presidente João Goulart, em 1964. Posteriormente, passou à oposição ao regime e ingressou no Movimento Democrático Brasileiro (MDB), legenda que se tornou a principal força parlamentar de oposição à ditadura. Em 1973, lançou sua candidatura simbólica à Presidência da República, como “anticandidato”, para denunciar a falta de eleições democráticas e defender a retomada das liberdades políticas.
A atuação de Ulysses ganhou projeção nacional durante a campanha das Diretas Já, em 1983 e 1984. À frente do PMDB, ele participou de mobilizações populares que exigiam eleições diretas para presidente da República. Embora a emenda que restabeleceria o voto direto não tenha sido aprovada pelo Congresso em 1984, o movimento ampliou a pressão pelo fim da ditadura e consolidou o político como um dos símbolos da redemocratização brasileira. Foi nesse contexto que recebeu o apelido de “Senhor Diretas”.
Com o fim do regime militar e a eleição indireta de Tancredo Neves, em 1985, Ulysses assumiu papel central na reorganização democrática do país. Em 1987, tornou-se presidente da Assembleia Nacional Constituinte, responsável pela elaboração da nova Constituição. Promulgada em 5 de outubro de 1988, a Carta ampliou direitos fundamentais, fortaleceu garantias individuais e estabeleceu as bases institucionais da democracia brasileira. Ulysses ficou associado à expressão “Constituição Cidadã”, utilizada para destacar o alcance social do texto.
Em 1989, Ulysses concorreu à Presidência da República na primeira eleição direta para o cargo após o regime militar. A candidatura, porém, terminou em sétimo lugar, em uma disputa marcada pela ascensão de Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva. Apesar do resultado, o deputado continuou sendo uma referência política durante os primeiros anos da Nova República e manteve atuação no Congresso em um período de instabilidade institucional.
Sua morte ocorreu durante uma viagem de helicóptero que partiu de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, com destino a São Paulo. A aeronave caiu no mar em meio a condições meteorológicas adversas. Além de Ulysses, morreram sua mulher, Mora Guimarães, o senador Severo Gomes, a esposa dele, Henriqueta, e o piloto. Os corpos e os destroços foram localizados na região marítima entre Paraty, no Rio de Janeiro, e Ubatuba, em São Paulo, mas o corpo do parlamentar não foi encontrado.
Ulysses morreu aos 76 anos, em um momento em que o país atravessava uma nova crise política, durante o processo que levaria ao impeachment do presidente Fernando Collor. Sua trajetória permanece ligada à resistência à ditadura, à mobilização pelas eleições diretas e à construção da Constituição de 1988. Trinta e quatro anos após seu desaparecimento, o legado do político segue presente na história institucional brasileira e nos debates sobre democracia, direitos e participação popular.
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