
Um grupo ligado ao ex-dono do Banco Master Daniel Vorcaro tinha acesso a informações sigilosas de investigações conduzidas pelo Ministério Público Federal (MPF), Polícia Federal (PF) e Banco Central, segundo relatório da própria PF enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF).
O documento, elaborado em fevereiro deste ano e divulgado após a retirada do sigilo de parte da investigação, aponta a existência de uma estrutura chamada pelos investigadores de "A Turma". Segundo a PF, o grupo funcionava como uma espécie de aparato privado de vigilância e coerção mantido por Vorcaro.
Um dos integrantes identificados pelos investigadores é Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Felipe Mourão ou "Sicário". De acordo com a PF, Vorcaro destinava cerca de R$ 1 milhão por mês para manter a estrutura.
Segundo o relatório, Mourão teria realizado acessos recorrentes e irregulares a procedimentos sigilosos em andamento no MPF, na PF, na Polícia Civil e no Banco Central.
A PF afirma que parte das consultas teria sido feita utilizando logins funcionais de terceiros. Os investigadores também identificaram extração de documentos e consultas não autorizadas em sistemas internos.
O relatório, de 164 páginas, reúne reproduções de conversas de WhatsApp entre integrantes do grupo e pessoas que, segundo a investigação, tinham acesso a sistemas públicos.
Em um dos episódios citados, de fevereiro de 2024, Vorcaro encaminhou a Mourão uma mensagem perguntando sobre um inquérito da Polícia Federal. Pouco depois, o suspeito teria recebido um áudio do policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva, que afirmava ter acionado contatos para dar atenção especial ao pedido do ex-banqueiro.
Segundo a PF, Marilson tinha acesso indevido a sistemas do MPF. Ele foi preso em março deste ano durante uma fase da Operação Compliance Zero, que investiga fraudes envolvendo o Banco Master.
Os investigadores afirmam ter identificado consultas feitas a partir do CPF de Daniel Vorcaro nos sistemas do MPF. Ao todo, foram localizados 15 procedimentos relacionados ao ex-banqueiro, dos quais 11 eram sigilosos.
As pesquisas também utilizavam os termos "BRB" e "Master", com o objetivo de localizar procedimentos que envolvessem simultaneamente o Banco de Brasília e o antigo Banco Master.
Em uma das conversas, um interlocutor demonstra preocupação com a quantidade de processos que poderiam ser encontrados e com a possibilidade de chamar atenção. Vorcaro, segundo o relatório, respondeu que queria todas as informações.
A PF afirma que um servidor teria tentado ocultar sua identidade ao compartilhar os resultados da consulta, apagando informações sobre seu nome e setor.
Entre os documentos obtidos estaria uma Notícia de Fato do MPF relacionada à possível existência de crime contra o sistema financeiro em uma tentativa de aquisição do Master pelo BRB.
Para os investigadores, o acesso ao documento, que tinha natureza reservada, indica possível obtenção indevida de informações sobre a investigação.
A investigação também aponta que a estrutura teria conseguido acesso ao ePol, sistema utilizado pela Polícia Federal para atividades de polícia judiciária e de acesso restrito a servidores da instituição.
Segundo a PF, mensagens trocadas em setembro de 2025 indicam que Mourão recebeu informações obtidas por meio do sistema. O relatório também menciona a cobrança de pagamentos mensais destinados à estrutura.
Em outro trecho, os investigadores relatam referências a consultas envolvendo organismos internacionais, entre eles o FBI, dos Estados Unidos, e a Interpol.
Uma mensagem encaminhada a Mourão em outubro de 2025 continha uma imagem com a identificação visual da Interpol e fazia referência a uma pesquisa. A PF afirma ter consultado a organização internacional no Brasil e recebido a informação de que a tela reproduzida não correspondia aos mecanismos de busca disponibilizados pela Interpol.
A organização, segundo o relatório, não descartou que a consulta pudesse ter sido realizada por sistemas de outros países.
Para os investigadores, Vorcaro poderia ter buscado informações sobre as apurações por meios legais, como o acesso aos autos por seus advogados, mas teria optado por utilizar a estrutura investigada.
A PF afirma que o grupo também teria sido usado para ações de intimidação, coerção e violência. O relatório menciona conversas sobre possíveis agressões físicas e mobilização de pessoas armadas para pressionar ou silenciar indivíduos.
Mourão foi preso durante as investigações, mas morreu dois dias depois após uma tentativa de suicídio na prisão, segundo informações divulgadas à época.
A Operação Compliance Zero investiga suspeitas de fraudes financeiras envolvendo o antigo Banco Master. O Banco Central decretou a liquidação da instituição em novembro de 2025, alegando grave crise de liquidez, comprometimento da situação econômico-financeira e violações de normas.
As investigações também alcançaram operações envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e levantaram suspeitas sobre possíveis relações entre Vorcaro e servidores do Banco Central.
O relatório sobre a estrutura de vigilância faz parte do conjunto de documentos analisados pelo STF no âmbito da Operação Compliance Zero. As informações apresentadas pela Polícia Federal ainda integram uma investigação e não representam, por si só, condenação dos envolvidos.
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