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Grupo de Vorcaro tinha informações do MPF, da PF e até da Interpol

Relatório enviado ao STF aponta consultas clandestinas a sistemas do MPF, PF e Banco Central e menciona informações relacionadas à Interpol

12/09/2026 às 09h00
Por: Cristiane Cirilo
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Esfera Brasil/Divulgação
Esfera Brasil/Divulgação

Um grupo ligado ao ex-dono do Banco Master Daniel Vorcaro tinha acesso a informações sigilosas de investigações conduzidas pelo Ministério Público Federal (MPF), Polícia Federal (PF) e Banco Central, segundo relatório da própria PF enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF).

O documento, elaborado em fevereiro deste ano e divulgado após a retirada do sigilo de parte da investigação, aponta a existência de uma estrutura chamada pelos investigadores de "A Turma". Segundo a PF, o grupo funcionava como uma espécie de aparato privado de vigilância e coerção mantido por Vorcaro.

Um dos integrantes identificados pelos investigadores é Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Felipe Mourão ou "Sicário". De acordo com a PF, Vorcaro destinava cerca de R$ 1 milhão por mês para manter a estrutura.

Consultas clandestinas em sistemas públicos

Segundo o relatório, Mourão teria realizado acessos recorrentes e irregulares a procedimentos sigilosos em andamento no MPF, na PF, na Polícia Civil e no Banco Central.

A PF afirma que parte das consultas teria sido feita utilizando logins funcionais de terceiros. Os investigadores também identificaram extração de documentos e consultas não autorizadas em sistemas internos.

O relatório, de 164 páginas, reúne reproduções de conversas de WhatsApp entre integrantes do grupo e pessoas que, segundo a investigação, tinham acesso a sistemas públicos.

Em um dos episódios citados, de fevereiro de 2024, Vorcaro encaminhou a Mourão uma mensagem perguntando sobre um inquérito da Polícia Federal. Pouco depois, o suspeito teria recebido um áudio do policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva, que afirmava ter acionado contatos para dar atenção especial ao pedido do ex-banqueiro.

Segundo a PF, Marilson tinha acesso indevido a sistemas do MPF. Ele foi preso em março deste ano durante uma fase da Operação Compliance Zero, que investiga fraudes envolvendo o Banco Master.

Buscas envolviam Vorcaro e o BRB

Os investigadores afirmam ter identificado consultas feitas a partir do CPF de Daniel Vorcaro nos sistemas do MPF. Ao todo, foram localizados 15 procedimentos relacionados ao ex-banqueiro, dos quais 11 eram sigilosos.

As pesquisas também utilizavam os termos "BRB" e "Master", com o objetivo de localizar procedimentos que envolvessem simultaneamente o Banco de Brasília e o antigo Banco Master.

Em uma das conversas, um interlocutor demonstra preocupação com a quantidade de processos que poderiam ser encontrados e com a possibilidade de chamar atenção. Vorcaro, segundo o relatório, respondeu que queria todas as informações.

A PF afirma que um servidor teria tentado ocultar sua identidade ao compartilhar os resultados da consulta, apagando informações sobre seu nome e setor.

Entre os documentos obtidos estaria uma Notícia de Fato do MPF relacionada à possível existência de crime contra o sistema financeiro em uma tentativa de aquisição do Master pelo BRB.

Para os investigadores, o acesso ao documento, que tinha natureza reservada, indica possível obtenção indevida de informações sobre a investigação.

Relatório cita sistemas da PF e informações internacionais

A investigação também aponta que a estrutura teria conseguido acesso ao ePol, sistema utilizado pela Polícia Federal para atividades de polícia judiciária e de acesso restrito a servidores da instituição.

Segundo a PF, mensagens trocadas em setembro de 2025 indicam que Mourão recebeu informações obtidas por meio do sistema. O relatório também menciona a cobrança de pagamentos mensais destinados à estrutura.

Em outro trecho, os investigadores relatam referências a consultas envolvendo organismos internacionais, entre eles o FBI, dos Estados Unidos, e a Interpol.

Uma mensagem encaminhada a Mourão em outubro de 2025 continha uma imagem com a identificação visual da Interpol e fazia referência a uma pesquisa. A PF afirma ter consultado a organização internacional no Brasil e recebido a informação de que a tela reproduzida não correspondia aos mecanismos de busca disponibilizados pela Interpol.

A organização, segundo o relatório, não descartou que a consulta pudesse ter sido realizada por sistemas de outros países.

PF aponta uso de estrutura privada

Para os investigadores, Vorcaro poderia ter buscado informações sobre as apurações por meios legais, como o acesso aos autos por seus advogados, mas teria optado por utilizar a estrutura investigada.

A PF afirma que o grupo também teria sido usado para ações de intimidação, coerção e violência. O relatório menciona conversas sobre possíveis agressões físicas e mobilização de pessoas armadas para pressionar ou silenciar indivíduos.

Mourão foi preso durante as investigações, mas morreu dois dias depois após uma tentativa de suicídio na prisão, segundo informações divulgadas à época.

Operação Compliance Zero

A Operação Compliance Zero investiga suspeitas de fraudes financeiras envolvendo o antigo Banco Master. O Banco Central decretou a liquidação da instituição em novembro de 2025, alegando grave crise de liquidez, comprometimento da situação econômico-financeira e violações de normas.

As investigações também alcançaram operações envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e levantaram suspeitas sobre possíveis relações entre Vorcaro e servidores do Banco Central.

O relatório sobre a estrutura de vigilância faz parte do conjunto de documentos analisados pelo STF no âmbito da Operação Compliance Zero. As informações apresentadas pela Polícia Federal ainda integram uma investigação e não representam, por si só, condenação dos envolvidos.

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