
A concentração de riqueza no Brasil amplia a desigualdade política e permite que grupos economicamente privilegiados tenham maior influência sobre decisões públicas, segundo relatório divulgado pela Oxfam Brasil. O estudo, intitulado Um Retrato das Desigualdades Brasileiras: Poder, Privilégio e a Captura da Democracia, analisa a relação entre patrimônio, acesso ao poder e capacidade de influenciar políticas públicas.
De acordo com a organização, a desigualdade econômica não se limita à diferença de renda ou patrimônio. Ela também interfere na capacidade de diferentes grupos participarem das decisões políticas, influenciar eleições e disputar a distribuição de recursos públicos.
O relatório aponta que pessoas e grupos com maior poder econômico conseguem financiar estruturas permanentes, contratar especialistas, acessar agentes públicos e exercer influência sobre partidos e instituições.
“Ao examinar a concentração no topo da distribuição, busca-se compreender como determinadas frações sociais monopolizam recursos econômicos, jurídicos e simbólicos que lhes permitem preservar posições de comando”, afirma o estudo.
Segundo a Oxfam, a concentração econômica também se reflete no perfil dos ocupantes de cargos políticos. Dados das eleições de 2022 citados no relatório mostram que 82,3% dos deputados federais eleitos eram homens, enquanto as mulheres representavam 17,7% das 513 vagas.
No Senado, foram eleitos 23 homens e quatro mulheres nas eleições daquele ano. Considerando a composição da Casa, o estudo aponta que havia 65 senadores homens e 16 mulheres.
A desigualdade também aparece na relação entre patrimônio declarado e sucesso eleitoral. Entre os candidatos ao Senado em 2022, 38% declararam patrimônio superior a R$ 1 milhão. Esse grupo, segundo a Oxfam, ocupou 55% das 27 vagas em disputa.
Para os pesquisadores, os dados indicam que o patrimônio acumulado pode se transformar em vantagem no acesso aos mandatos públicos, especialmente quando combinado com recursos destinados ao financiamento de campanhas.
O relatório também relaciona a situação brasileira a um cenário internacional de concentração de patrimônio. Segundo levantamento da Oxfam Internacional citado no estudo, a riqueza dos bilionários aumentou US$ 2,5 trilhões no ano anterior, atingindo US$ 18,3 trilhões.
Outro levantamento mencionado, o World Inequality Report 2026, aponta que os 10% mais ricos do mundo concentram renda superior à dos outros 90% da população.
Já o Global Wealth Report 2026, elaborado pelo banco suíço UBS, colocou o Brasil entre os países com maior desigualdade patrimonial. Segundo os dados citados pela Oxfam, o país terminou 2025 com cerca de 386 mil milionários em dólar.
O relatório também aponta que aproximadamente 69% dos adultos brasileiros estavam na base da distribuição patrimonial, com riqueza média de até R$ 51 mil.
A Oxfam reconhece avanços recentes na redução da pobreza, mas afirma que políticas de transferência de renda, isoladamente, não são suficientes para modificar as estruturas que produzem desigualdade.
Na avaliação da organização, a estrutura tributária brasileira contribui para a manutenção dessas diferenças ao pesar proporcionalmente mais sobre a população de menor renda.
O estudo também cita a atuação de grandes empresas de tecnologia e plataformas de apostas como fatores que, segundo os pesquisadores, ampliam a capacidade de concentração econômica e influência social em mercados com regulamentação em transformação.
Outro ponto destacado pelo relatório é o perfil das pessoas que ocupam posições estratégicas nos diferentes poderes. A Oxfam afirma que cargos de decisão política, técnica e institucional ainda são majoritariamente ocupados por pessoas brancas, homens e integrantes das camadas mais ricas da sociedade.
O estudo sustenta que a desigualdade de representação ultrapassa os cargos eletivos e também aparece no Executivo, no Judiciário e em conselhos e órgãos técnicos.
Para a organização, a presença recorrente de integrantes das mesmas redes sociais e econômicas em diferentes instituições pode facilitar a coordenação de interesses e ampliar a influência desses grupos sobre decisões públicas.
A Oxfam defende mudanças em quatro frentes: maior igualdade e transparência tributária; fortalecimento da participação política; ampliação da representação da diversidade social no Congresso; e maior controle social sobre gastos públicos, normas e conselhos.
Segundo o relatório, a democracia pode ser enfraquecida quando o poder econômico deixa de apenas participar do processo político e passa a determinar as condições de participação dos demais grupos.
A organização afirma que a desigualdade não é necessariamente permanente e pode ser reduzida por meio de escolhas políticas e institucionais.
O relatório completo está disponível no site da Oxfam Brasil.
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