16°C 30°C
Belo Horizonte, MG
Publicidade

Nova diretriz muda tratamento de alterações da tireoide na gravidez

Estudos mostram que algumas gestantes não precisam mais receber hormônio preventivamente; acompanhamento durante a gestação continua sendo recomendado

28/08/2026 às 09h08
Por: Cristiane Cirilo
Compartilhe:
Getty Images
Getty Images

Uma nova diretriz mudou as recomendações para o diagnóstico e o tratamento de alterações da tireoide durante a gravidez.

A atualização é baseada em estudos recentes e restringe o uso preventivo da levotiroxina, hormônio sintético usado para tratar o hipotireoidismo.

No Brasil, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia atualizaram as orientações após a publicação de uma nova diretriz da Associação Americana da Tireoide, em junho.

Uma das principais mudanças envolve gestantes que apresentam anticorpos contra a tireoide, chamados anti-TPO, mas que têm a função da glândula normal.

Nesses casos, o medicamento não deve ser usado apenas como prevenção.

Estudos clínicos indicaram que a levotiroxina não reduz o risco de aborto ou parto prematuro quando a mulher tem anti-TPO positivo, mas mantém níveis normais dos hormônios tireoidianos.

Isso não significa, porém, que essas gestantes deixem de ser acompanhadas.

A presença do anti-TPO indica uma maior predisposição ao desenvolvimento de hipotireoidismo durante a gravidez. Por isso, a função da tireoide deve continuar sendo monitorada.

O que é a tireoide?

A tireoide é uma glândula localizada na parte da frente do pescoço. Ela produz hormônios, principalmente T3 e T4, que participam do controle do metabolismo e de diversas funções do organismo.

Durante a gravidez, os hormônios da tireoide também têm papel importante no desenvolvimento do bebê, especialmente nas primeiras semanas de gestação.

Quando a glândula produz hormônios em quantidade insuficiente, ocorre o hipotireoidismo.

Se não for identificado e tratado quando necessário, o problema pode estar associado a complicações para a gestante e para o feto.

Por isso, o objetivo da nova orientação é diferenciar as mulheres que realmente precisam de tratamento daquelas que podem apenas ser acompanhadas.

Hipotireoidismo subclínico

Outra mudança envolve o chamado hipotireoidismo subclínico.

Nessa condição, o TSH, hormônio que estimula a tireoide, está elevado, enquanto o T4 livre permanece dentro da faixa considerada normal.

Pela nova recomendação brasileira, a decisão de iniciar o tratamento para níveis de TSH entre 4 e 10 mUI/L ganha maior importância no primeiro trimestre da gravidez, período em que o feto depende mais dos hormônios maternos para seu desenvolvimento.

Se a alteração for identificada somente no segundo ou terceiro trimestre, a orientação é acompanhar a função da tireoide e avaliar individualmente a necessidade de tratamento.

Uma exceção importante ocorre quando o TSH ultrapassa 10 mUI/L, situação em que o tratamento é recomendado.

Segundo o endocrinologista Cleo Mesa Júnior, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, a decisão deve levar em conta os níveis de TSH e T4 livre e o momento da gestação.

Quem já tinha hipotireoidismo

Para mulheres que já tinham hipotireoidismo antes de engravidar, a recomendação permanece diferente.

Nesses casos, a orientação é aumentar em aproximadamente 30% a dose habitual da reposição hormonal assim que a gravidez for confirmada, com acompanhamento médico.

Isso acontece porque a necessidade de hormônios tireoidianos aumenta durante a gestação.

Exames continuam importantes

Apesar das mudanças, o Brasil manterá a estratégia de rastrear todas as gestantes desde o início da gravidez.

A nova diretriz norte-americana sugere uma abordagem mais seletiva, priorizando mulheres com fatores de risco.

Os especialistas brasileiros, porém, consideram que testar todas as gestantes pode evitar que casos de alteração da tireoide passem despercebidos.

Entre os principais fatores que aumentam o risco estão histórico de hipotireoidismo ou hipertireoidismo, cirurgia ou tratamento anterior da tireoide, doenças autoimunes, histórico familiar de doença tireoidiana, infertilidade, dois ou mais abortamentos e uso de medicamentos que podem interferir no funcionamento da glândula.

Por outro lado, idade materna, obesidade e número de gestações anteriores deixam de ser considerados, isoladamente, fatores de risco prioritários.

E o iodo?

A atualização também traz mudanças sobre o consumo de iodo.

O mineral é essencial para a produção dos hormônios da tireoide e sua necessidade aumenta durante a gravidez e a amamentação.

A orientação brasileira, no entanto, não recomenda suplementação de iodo para todas as gestantes.

A indicação deve ser individualizada, principalmente em mulheres que apresentam maior possibilidade de ingestão insuficiente, como aquelas com dietas muito restritivas, baixo consumo ou ausência de sal iodado ou problemas de absorção.

A principal mudança da nova diretriz, portanto, é evitar o uso indiscriminado de hormônios e concentrar o tratamento nas gestantes que apresentam alteração comprovada da função da tireoide.

As recomendações não substituem a avaliação médica. Gestantes não devem iniciar, suspender ou alterar a dose de medicamentos por conta própria.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.