
Um levantamento divulgado pela ACT Promoção da Saúde em parceria com a Agência Bori revela que a inflação dos alimentos no Brasil tem atingido de forma mais intensa os produtos frescos, como frutas, verduras e carnes, enquanto itens ultraprocessados têm apresentado variação menor de preços.
De acordo com o estudo, o aumento no custo da alimentação não é pontual, mas estrutural, ou seja, está ligado a características históricas da economia brasileira. A pesquisa foi elaborada pelo economista Valter Palmieri Junior, doutor pela Universidade Estadual de Campinas.
Entre 2006 e 2025, os preços dos alimentos subiram 302,6% no país, enquanto a inflação oficial, medida pelo IPCA, foi de 186,6%. Isso representa um aumento cerca de 62% superior ao índice geral.
Os produtos que mais encareceram no período foram:
Além disso, o estudo aponta que, no Brasil, os preços dos alimentos sobem rapidamente em momentos de crise, mas demoram mais para cair.
O impacto no bolso do consumidor é ainda mais evidente nos alimentos in natura. O poder de compra caiu cerca de 31% para frutas e 26,6% para hortaliças. Em contrapartida, produtos ultraprocessados ficaram relativamente mais acessíveis como refrigerantes, embutidos e alimentos industrializados.
Segundo o pesquisador, isso acontece porque esses produtos utilizam poucos insumos básicos, como trigo, milho, açúcar e óleo, que passam por processos industriais e mantêm maior estabilidade de preços.
O estudo também aponta que o modelo agroexportador brasileiro influencia diretamente o custo dos alimentos. Com maior rentabilidade no mercado externo, produtores priorizam culturas como soja, milho e cana-de-açúcar, reduzindo a oferta de itens voltados ao consumo interno, como arroz, feijão e hortaliças.
Outro fator relevante é o aumento expressivo no custo de produção. Fertilizantes, por exemplo, tiveram alta superior a 2.400% no período analisado, além de encarecimento de máquinas, insumos e tecnologias agrícolas.
A pesquisa destaca ainda a concentração de mercado em setores como sementes, pesticidas e alimentos industrializados, o que contribui para a pressão nos preços. Outro fenômeno citado é a chamada “inflação invisível”, quando produtos mantêm o preço, mas perdem qualidade com a substituição de ingredientes.
Entre as soluções sugeridas estão o incentivo à produção local, o fortalecimento do abastecimento interno e políticas que ampliem o acesso à terra e estimulem a produção de alimentos básicos.
Para o autor, o preço dos alimentos vai além da economia. “Reflete escolhas sobre o modelo de sociedade que queremos construir”, conclui.
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