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Mudanças climáticas ampliam risco de doenças infecciosas no Brasil

Dengue, febre do Oropouche, leptospirose e infecções por fungos estão entre os problemas associados a alterações de temperatura, chuvas e eventos extremos

26/10/2026 às 09h30
Por: Cristiane Cirilo
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witsawat/ Adobe Stock
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As mudanças climáticas já contribuem para a expansão de doenças infecciosas no Brasil. Alterações nos padrões de temperatura e umidade, períodos de seca, enchentes e degradação ambiental favorecem a circulação de agentes infecciosos e ampliam o contato entre seres humanos, animais e vetores, como mosquitos. Entre os exemplos estão a dengue, a febre do Oropouche, a leptospirose e infecções provocadas por fungos.

Um dos casos mais evidentes é o da dengue. Durante décadas, temperaturas mais baixas limitaram a presença do mosquito Aedes aegypti em regiões do país. Esse cenário mudou com a expansão do vetor para áreas onde antes encontrava condições menos favoráveis à reprodução.

Em 2024, quando o Brasil registrou um número recorde de casos de dengue, o Rio Grande do Sul contabilizou quase 210 mil infecções confirmadas e 281 mortes. Na Bahia, foram cerca de 163 mil casos confirmados e 188 óbitos.

Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), publicado na revista científica Scientific Reports, identificou que o número de microrregiões brasileiras com níveis epidêmicos de dengue passou de 110, em 2006, para 292, em 2024. O total representa cerca de 54% das microrregiões analisadas.

A pesquisa aponta que o aumento da frequência de anomalias de temperatura está entre os fatores climáticos que melhor explicam a elevação da incidência da doença no longo prazo. Essas anomalias ocorrem quando as temperaturas ficam significativamente diferentes dos padrões habituais de determinada região.

Segundo o infectologista Celso Granato, membro da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial, a expansão da dengue demonstra como as mudanças climáticas podem afetar a distribuição de doenças infecciosas.

O calor interfere em diferentes etapas do ciclo de vida do mosquito, desde a eclosão dos ovos até o comportamento dos insetos adultos. Em temperaturas elevadas, os mosquitos podem precisar se alimentar com maior frequência, aumentando as oportunidades de transmissão do vírus, desde que estejam infectados.

Febre do Oropouche avança para outras regiões

A febre do Oropouche também está entre as doenças cuja distribuição mudou nos últimos anos. Antes concentrada principalmente na Região Amazônica, a infecção se espalhou para outras partes do país.

Em 2025, foram registradas mais de 12 mil infecções em 23 estados e no Distrito Federal, segundo os dados apresentados na reportagem da Agência Brasil. A relação direta entre a expansão da doença e as mudanças climáticas ainda está sendo investigada, mas especialistas consideram que alterações de temperatura e de regime de chuvas, combinadas à degradação ambiental, podem ter contribuído para esse processo.

A febre do Oropouche é causada por um vírus transmitido principalmente pelo mosquito conhecido como maruim. A expansão para novas áreas exige atenção dos serviços de vigilância epidemiológica, sobretudo em locais onde a população tem pouca exposição anterior ao vírus.

Enchentes aumentam risco de leptospirose

Eventos climáticos extremos também podem favorecer doenças transmitidas pela água contaminada. As enchentes, por exemplo, aumentam o risco de leptospirose, infecção bacteriana associada principalmente à exposição à água ou à lama contaminadas pela urina de animais infectados, especialmente ratos.

Após as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, houve aumento dos casos da doença. O contato com águas de inundação também pode expor a população a esgoto e outros contaminantes, elevando o risco de infecções gastrointestinais e de doenças como a hepatite A.

Além dos efeitos imediatos das enchentes, a interrupção do abastecimento de água potável e dos serviços de saneamento pode dificultar a prevenção e o controle de infecções.

As secas e os incêndios florestais representam outro tipo de risco. Quando animais silvestres perdem seus habitats, podem se aproximar de áreas residenciais em busca de abrigo e alimento. Esse deslocamento aumenta as oportunidades de contato entre seres humanos e animais capazes de transportar agentes infecciosos.

Um dos exemplos citados por especialistas é o hantavírus. No Brasil, determinadas variantes do vírus podem causar a síndrome cardiopulmonar por hantavírus, uma doença grave associada principalmente à exposição a partículas contaminadas por excreções de roedores infectados.

Desde 2016, o país registrou 530 infecções e 212 mortes, conforme os números apresentados na reportagem original. A proporção reforça a importância da prevenção e da vigilância em áreas afetadas por alterações ambientais.

Mudanças ambientais também afetam os fungos

Os efeitos das mudanças climáticas sobre a saúde não se limitam aos vírus e às bactérias. Fungos presentes no ambiente também podem sofrer alterações que favoreçam sua adaptação a novas condições.

A professora Sarah Gonçalves Tavares, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), explica que muitos fungos ambientais não conseguem crescer normalmente à temperatura do corpo humano. No entanto, o aumento das temperaturas ambientais pode favorecer a seleção de espécies ou linhagens capazes de suportar condições mais quentes.

Esse processo, combinado a outras alterações ecológicas, pode contribuir para o surgimento de infecções em seres humanos, especialmente entre pessoas com o sistema imunológico comprometido.

Um exemplo é a Candida auris, espécie de fungo que pode persistir no ambiente hospitalar e apresentar resistência a diferentes medicamentos antifúngicos. Os surtos estão associados principalmente a unidades de saúde, onde pacientes vulneráveis podem desenvolver infecções graves.

O primeiro registro de infecção pelo fungo no Brasil ocorreu em 2020, na Bahia. Desde então, foram identificadas ocorrências em diferentes estados, segundo os dados apresentados na reportagem. A transmissão em ambientes de saúde exige medidas rigorosas de prevenção, identificação e controle.

Outra preocupação é o surgimento de fungos resistentes aos tratamentos disponíveis. A espécie Trichophyton indotineae, por exemplo, pode causar infecções de pele e apresentar resistência a medicamentos antifúngicos. O uso inadequado desses produtos e outros fatores ambientais podem contribuir para a seleção de linhagens resistentes.

As alterações de temperatura e umidade também podem modificar a distribuição geográfica de fungos ambientais, como os do gênero Aspergillus, que podem provocar doenças principalmente em pessoas vulneráveis.

Prevenção exige vigilância e atenção aos eventos extremos

A relação entre clima e doenças infecciosas envolve diferentes fatores. As mudanças climáticas podem alterar as condições de sobrevivência e reprodução de vetores e microrganismos, enquanto a degradação ambiental, a urbanização sem infraestrutura adequada e as falhas de saneamento podem ampliar os riscos.

Por isso, especialistas destacam a importância de fortalecer a vigilância epidemiológica, monitorar alterações na distribuição de doenças e preparar os serviços de saúde para períodos de calor intenso, enchentes e secas.

A prevenção também depende de medidas individuais e coletivas, como eliminar recipientes com água parada, evitar o contato com águas de enchentes, utilizar água potável e procurar atendimento médico diante de sintomas suspeitos.

O acompanhamento das condições climáticas e ambientais, aliado à identificação precoce de surtos, é uma das estratégias para reduzir os impactos das mudanças climáticas sobre a saúde pública.

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