O governo federal pretende leiloar em 2026 aquele que será o maior trecho rodoviário sob concessão no Estado de Minas Gerais. Com 734,9 quilômetros de extensão, o lote que reúne trechos das BRs 116 e 251 deverá ser repassado à iniciativa privada e receber o nome de “Rota Gerais”. O traçado abrange a BR-116 entre Governador Valadares e Divisa Alegre, e a BR-251 entre Divisa Alegre e Montes Claros, cortando diretamente 13 municípios e impactando outros 13 ao longo de sua extensão.
Segundo a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), o projeto de concessão prevê a duplicação de 178,4 km de pista, sendo apenas 24 km na BR-251, além da implantação de 240,9 km de faixas adicionais. A proposta ainda está em fase de avaliação técnica, após a realização de audiências públicas entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2025. O investimento estimado é de R$ 12,4 bilhões ao longo dos 30 anos de contrato com a concessionária vencedora.
A extensão do lote BR-116/251 supera a de outros trechos mineiros já concedidos, como o da BR-116/465/493, entre Governador Valadares e Itaguaí (RJ), que possui 733 km – embora parte significativa dessa rodovia esteja em território fluminense. A escolha por reunir dois dos mais extensos e perigosos trechos do Estado tem respaldo em números alarmantes: só em 2024, a BR-116 registrou 190 mortes, sendo 41 em um único acidente ocorrido em Teófilo Otoni. Já a BR-251 contabilizou 51 óbitos no mesmo período.
Especialistas e autoridades destacam a urgência de melhorias estruturais. O pesquisador do Cedeplar/UFMG, Victor Medeiros, ressalta que o trecho da BR-116 em Teófilo Otoni é um dos mais críticos e aponta problemas no pavimento e buracos como fatores recorrentes de acidentes. “Essas rodovias apresentam riscos sérios à vida dos motoristas e pedestres, e a concessão pode representar um avanço, desde que bem executada”, afirmou.
A Confederação Nacional do Transporte (CNT), por meio de seu presidente Vander Costa, defende a concessão como uma estratégia para estimular o desenvolvimento das regiões mais pobres do Estado, destacando a importância logística das duas rodovias na ligação entre o Sul, Sudeste e Nordeste do país.
Apesar das promessas de investimento e modernização, o projeto enfrenta críticas de prefeitos das cidades afetadas. Eles argumentam que o número de quilômetros previstos para duplicação é insuficiente frente à demanda real das regiões cortadas pelas rodovias. O prefeito de São João da Lagoa e presidente da Associação dos Municípios da Área Mineira da Sudene, Ronaldo Dias (PL), afirma que o projeto “representa uma melhora em relação ao abandono atual, mas está longe de atender às reais necessidades”. Segundo ele, a duplicação prevista para a BR-251 é mínima e ignora trechos críticos.
A mesma preocupação é compartilhada pelo prefeito de Montes Claros, Guilherme Guimarães (União Brasil), que cobra intervenções mais robustas especialmente nas regiões de serra, como as de Francisco Sá e Salinas. “O projeto não atende às necessidades de segurança, mobilidade e desenvolvimento. É preciso revisar o escopo para ampliar a capacidade e reduzir os riscos”, defende.
Em resposta, a ANTT declarou que todas as sugestões recebidas durante a audiência pública estão sendo analisadas tecnicamente. A agência também explicou que a duplicação será realizada conforme o volume de tráfego, sendo as faixas adicionais a solução adotada em trechos com menor demanda.
Com o leilão previsto para 2026, o destino do lote BR-116/251 ainda está em discussão, mas já movimenta o debate entre autoridades, especialistas e a população que depende diariamente dessas vias. A expectativa é de que a futura concessão seja capaz de transformar um dos trechos mais perigosos do Estado em uma rota mais segura e eficiente.
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