14°C 23°C
Belo Horizonte, MG
Publicidade

Justiça Federal determina paralisação de mina de lítio no Vale do Jequitinhonha

Decisão suspende licenças ambientais do complexo Grota do Cirilo, operado pela Sigma Mineração, após questionamentos sobre estudos de impacto e consulta a comunidades quilombolas

08/09/2026 às 12h00
Por: Cristiane Cirilo
Compartilhe:
© MGLit/Divulgação
© MGLit/Divulgação

A Justiça Federal em Minas Gerais determinou a suspensão das licenças ambientais e a paralisação das atividades do complexo minerário Grota do Cirilo, operado pela Sigma Mineração S.A. nos municípios de Itinga e Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha. A decisão atende a um pedido da Federação das Comunidades Quilombolas do Estado de Minas Gerais, que questiona os estudos de impacto ambiental apresentados para o empreendimento.

A determinação foi assinada pelo juiz federal Antônio Lúcio Túlio de Oliveira Barbosa, da Vara Cível de Teófilo Otoni. Em caso de descumprimento da ordem, foi estabelecida multa de R$ 100 mil.

Segundo a decisão, a suspensão foi determinada diante do risco de danos às comunidades tradicionais que vivem nas proximidades da área de mineração. O complexo realiza atividades de extração de lítio, incluindo detonações com explosivos e movimentação de terra.

Comunidades quilombolas

A principal controvérsia envolve três comunidades quilombolas — Baú, Genipapo Pintos e Jenipapo II. A federação afirma que os territórios estão dentro da área de impacto direto do empreendimento e que seus moradores não foram consultados antes da concessão das licenças ambientais.

A entidade também acusa a Sigma de ter subestimado, nos estudos apresentados aos órgãos ambientais, a distância entre as áreas de mineração e as comunidades tradicionais. A alegação é de que isso teria contribuído para a obtenção das licenças.

A empresa, por sua vez, sustenta que as comunidades estão fora do raio de oito quilômetros previsto para a realização de consulta, conforme dados de georreferenciamento apresentados no processo.

Dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), no entanto, apontam uma distância menor em relação a pelo menos uma das comunidades. Segundo as informações citadas no processo, a comunidade do Baú estaria a aproximadamente 2,3 quilômetros da área diretamente afetada pelo empreendimento.

Diante da divergência entre os dados, a Justiça determinou a realização de uma nova perícia para esclarecer a localização das comunidades e os possíveis impactos da atividade minerária.

Até que a questão seja esclarecida, as atividades no complexo devem permanecer suspensas.

Operação começou em 2023

A mineração no projeto Grota do Cirilo teve início em 2023 e integra o chamado Vale do Lítio, região do Nordeste de Minas Gerais que concentra investimentos na exploração do mineral.

O lítio é utilizado principalmente na fabricação de baterias recarregáveis, incluindo as empregadas em equipamentos eletrônicos e veículos elétricos.

Na decisão, o juiz considerou que a continuidade das atividades sem a definição sobre a necessidade de consulta às comunidades poderia provocar danos cumulativos à população tradicional.

Multas e condicionantes ambientais

Segundo informações do processo, a Sigma Mineração recebeu multas que somam R$ 2 milhões do governo de Minas Gerais por descumprimento de condicionantes ambientais desde o início da operação na Grota do Cirilo.

A empresa havia concordado em firmar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para corrigir as irregularidades apontadas e manter as atividades.

A Justiça Federal, porém, também determinou que o governo de Minas Gerais não firme um novo acordo desse tipo relacionado ao empreendimento enquanto as questões discutidas no processo não forem solucionadas. O descumprimento dessa determinação também poderá resultar em multa de R$ 100 mil.

A decisão ainda poderá ser questionada pelas partes nas instâncias superiores.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.