
O avanço do endividamento das famílias e a dificuldade de acesso ao crédito formal têm impulsionado a atuação de grupos de agiotas na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). Investigações da Polícia Civil apontam que organizações criminosas, formadas por brasileiros e colombianos, utilizam violência, ameaças e intimidações para cobrar dívidas, transformando a vida das vítimas em um cenário de medo constante.
Segundo a investigação, além da cobrança de juros considerados abusivos, os criminosos recorrem a espancamentos, torturas e ameaças de morte para forçar o pagamento dos valores emprestados. Em alguns casos, as agressões são gravadas em vídeo e compartilhadas em grupos de mensagens, com o objetivo de intimidar outros devedores e fortalecer o controle exercido pelas organizações.
Uma comerciante da região Noroeste de Belo Horizonte relatou que precisou deixar a própria casa após sofrer ameaças de agiotas colombianos. Ela afirma que devia pouco mais de R$ 2 mil quando passou a ser perseguida e intimidada, chegando a abandonar o imóvel por medo de represálias. Mesmo após perder bens e deixar a residência, a dívida continuou sendo cobrada.
A Polícia Civil deflagrou a Operação Capital Coativo para combater o esquema criminoso que atuava principalmente na Região Metropolitana de Belo Horizonte, com destaque para Contagem. Ao todo, 14 pessoas foram presas, sendo nove colombianos e cinco brasileiros. As investigações revelaram que os grupos possuem formas distintas de atuação, embora ambos utilizem a violência como instrumento de cobrança.
De acordo com o delegado responsável pelo caso, as organizações colombianas operam de maneira estruturada, com integrantes que chegam ao Brasil já vinculados ao grupo criminoso e seguem uma hierarquia até assumirem funções de comando. Eles costumam cobrar juros diários que podem variar entre 6% e 20% e permanecem nos estabelecimentos das vítimas durante horas, intimidando clientes e pressionando pelo pagamento.
Já os grupos brasileiros, segundo a Polícia Civil, costumam agir em equipes menores, porém empregam métodos ainda mais violentos. As investigações apontam invasões de residências, agressões físicas com pedaços de madeira e armas de choque, perseguição a familiares, intimidação de crianças e idosos, além do uso de armas de fogo e motocicletas para facilitar a fuga após as ações criminosas.
Especialistas alertam que os impactos da agiotagem vão além dos prejuízos financeiros. A pressão psicológica imposta pelas ameaças pode desencadear transtornos como ansiedade e depressão, principalmente em pessoas que já enfrentam dificuldades econômicas. Economistas destacam ainda que o recurso ao empréstimo ilegal normalmente ocorre quando todas as alternativas de crédito formal já foram esgotadas, deixando famílias vulneráveis ainda mais expostas à exploração.
A Polícia Civil reforça que a agiotagem é crime e frequentemente está associada a outras práticas criminosas. A orientação é para que vítimas procurem as autoridades e registrem ocorrência, já que o aumento das denúncias contribui para o fortalecimento das investigações, dificulta a atuação das organizações e amplia a proteção às pessoas ameaçadas.
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