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Demissões voluntárias crescem 147% em Minas nos últimos cinco anos e revelam nova dinâmica do mercado de trabalho

Busca por melhores oportunidades, qualidade de vida e novos modelos de carreira impulsiona pedidos de desligamento no estado

16/02/2026 às 16h00
Por: Cristiane Cirilo
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Jornal Contábil
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O número de demissões voluntárias em Minas Gerais registrou um crescimento expressivo nos últimos cinco anos, evidenciando uma mudança estrutural na relação entre trabalhadores e empresas. Entre 2020 e 2025, os pedidos de desligamento saltaram de 385 mil para 951 mil, um aumento de 147%, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

O movimento acompanha a tendência nacional. No Brasil, as saídas voluntárias passaram de 15,9 milhões em 2020 para 25,3 milhões em 2025, indicando um novo comportamento no mercado de trabalho, marcado por maior mobilidade profissional e busca ativa por melhores oportunidades.

Para o presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos em Minas, David Braga, os números refletem uma transformação profunda. “A retomada econômica pós-pandemia reduziu o medo do desemprego e ampliou a mobilidade profissional, encorajando trabalhadores a buscarem melhores condições de remuneração, desenvolvimento e qualidade de vida”, afirma.

Segundo ele, o fenômeno vai além de insatisfações pontuais e representa uma estratégia consciente de reposicionamento de carreira. “A digitalização acelerada e o surgimento de novos modelos de negócio ampliaram as possibilidades profissionais, sobretudo nos setores de serviços e tecnologia, que passaram a disputar talentos com mais intensidade”, explica.

A fundadora da People Leap, Giovanna Gregori, destaca que o perfil do trabalhador mudou, especialmente entre os mais jovens. “O profissional de hoje não aceita mais condições que antes eram normalizadas, como salário baixo, jornadas rígidas, falta de propósito e má gestão. A pandemia acelerou uma revisão de prioridades: saúde mental, flexibilidade e qualidade de vida passaram a ter mais peso que a estabilidade a qualquer custo”, avalia.

Impactos para empresas e setores

Sob a ótica empresarial, o avanço das demissões voluntárias expõe fragilidades históricas na gestão de pessoas. Estruturas salariais pouco atrativas, trajetórias de carreira limitadas e modelos rígidos de jornada e liderança estão entre os fatores que contribuem para a perda de talentos.

Em Minas Gerais, os setores de comércio, serviços e construção civil concentram o maior volume absoluto de desligamentos voluntários, por serem intensivos em mão de obra e apresentarem alta rotatividade estrutural. Ao mesmo tempo, áreas como tecnologia, finanças e engenharia também registram saídas relevantes, impulsionadas pela forte demanda, escassez de profissionais qualificados e disputa salarial.

Diante do cenário, empresas têm reagido com ajustes em políticas de remuneração variável, ampliação de programas de desenvolvimento profissional e adoção de modelos híbridos de trabalho. “A retenção deixou de ser apenas uma questão salarial e passou a refletir a qualidade da experiência cotidiana no trabalho”, afirma David Braga.

Tendência de continuidade

Especialistas avaliam que o movimento de demissões voluntárias deve se manter elevado no médio prazo. Para Braga, a mobilidade profissional tende a ser característica permanente de mercados mais dinâmicos. “Ela passa a ser interpretada como sinal de maior competição por talentos e de um ajuste mais sofisticado entre expectativas profissionais e ofertas de emprego”, analisa.

Giovanna Gregori reforça que se trata de uma mudança estrutural. “As pessoas não estão apenas buscando ganhar mais, estão buscando trabalhar melhor. Flexibilidade, possibilidade de trabalho remoto ou híbrido, lideranças mais humanas e ambientes saudáveis se tornaram decisivos. Quando a empresa oferece só salário e ignora esse conjunto, perde a disputa por talentos”, alerta.

Apesar disso, especialistas ponderam que o fenômeno é sensível ao ciclo econômico. Cenários de instabilidade, aumento do desemprego ou desaceleração da economia tendem a tornar os trabalhadores mais cautelosos na decisão de pedir demissão.

Mesmo assim, o cenário atual aponta para um novo equilíbrio nas relações de trabalho: a decisão de permanência deixou de ser unilateral. “A empresa seleciona, mas o colaborador também decide, todos os dias, se quer continuar fazendo parte daquela organização”, resume Braga.

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