
A Polícia Federal adiou o depoimento de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, que estava previsto para esta quinta-feira (27). A oitiva chegou a começar por videoconferência, às 10h, mas foi interrompida após uma queda na conexão de internet. Segundo a defesa, não foi possível restabelecer o sinal, e o depoimento deverá ser retomado nesta sexta-feira (28).
A audiência foi realizada a partir da Papudinha, unidade onde Vorcaro está preso, em Brasília. De acordo com o advogado Daniel Bialski, o ex-banqueiro permaneceu aguardando até quase 13h na expectativa de que a conexão fosse restabelecida. Como isso não ocorreu, a Polícia Federal decidiu adiar a continuidade da oitiva.
O depoimento é uma das etapas da investigação que apura a relação de Vorcaro com dois ex-supervisores do Banco Central, Paulo Sérgio Neves de Souza e Bellini Santana. Os investigadores suspeitam que os servidores possam ter recebido vantagens indevidas e atuado para beneficiar o Banco Master durante o período de crise que antecedeu a liquidação da instituição financeira.
A investigação busca esclarecer se os servidores receberam pagamentos ou outros benefícios em troca de uma atuação favorável ao banco em processos de fiscalização, discussões sobre apoio financeiro e decisões que poderiam afetar o futuro da instituição. Também são analisadas possíveis orientações estratégicas e o eventual compartilhamento de informações internas do Banco Central com Vorcaro.
As suspeitas ganharam força após apurações do próprio Banco Central e depoimento prestado à Polícia Federal pelo diretor de Fiscalização da instituição, Ailton de Aquino. Segundo ele, dúvidas sobre a situação do Banco Master surgiram no início de 2025, quando a instituição enfrentava dificuldades de liquidez, mas continuava realizando operações bilionárias de cessão de crédito com o Banco de Brasília (BRB).
De acordo com Aquino, uma equipe de monitoramento identificou posteriormente que carteiras de crédito apresentadas pelo Master não existiam. O diretor também relatou que a área de supervisão comandada por Bellini e acompanhada por Paulo Sérgio teria demonstrado resistência ao aprofundamento das medidas de fiscalização e defendido alternativas que poderiam evitar a liquidação do banco.
Outro foco da apuração são operações financeiras envolvendo os dois servidores. Bellini teria relatado o recebimento de duas parcelas de R$ 500 mil e, posteriormente, pagamentos mensais por meio de uma empresa. Já Paulo Sérgio afirmou ter vendido uma propriedade rural em Guaxupé, em Minas Gerais, por R$ 4,5 milhões e disse ter descoberto posteriormente que o comprador tinha ligação familiar com Vorcaro. A PF investiga se essas operações tiveram relação com a atuação dos servidores.
Vorcaro está preso preventivamente desde março deste ano e já havia sido detido em novembro de 2025, durante a primeira fase da Operação Compliance Zero, mas foi solto dias depois por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). O atual depoimento ocorre também em meio ao impasse nas negociações para um possível acordo de colaboração premiada, pelo qual investigados podem fornecer informações às autoridades em troca de benefícios previstos em lei.
A nova oitiva deverá permitir que Vorcaro apresente sua versão sobre as suspeitas e responda aos elementos reunidos pela Polícia Federal, pelo Ministério Público Federal e pelo Banco Central. Além da investigação criminal, Paulo Sérgio e Bellini respondem a processos administrativos disciplinares na Controladoria-Geral da União (CGU). A defesa de Bellini nega favorecimento ao Banco Master, recebimento de vantagens indevidas ou compartilhamento de informações sigilosas e critica o vazamento de informações de uma investigação sob sigilo.
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