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Marcas ligadas a influenciadoras são autuadas por trabalho análogo à escravidão em MG

Organizações do setor defendem maior fiscalização e políticas públicas que responsabilizem empresas por todas as etapas da produção, desde a origem da matéria-prima até a entrega ao consumidor final

03/04/2026 às 12h08
Por: Cristiane Cirilo
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Ministério do Trabalho e Emprego
Ministério do Trabalho e Emprego

As marcas de roupas Anne Fernandes e Lore foram autuadas por trabalho análogo à escravidão após fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) identificar irregularidades em oficinas de costura na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Durante as inspeções, realizadas entre agosto e setembro de 2025, 16 trabalhadores bolivianos, incluindo uma adolescente, foram resgatados em condições consideradas degradantes. As oficinas estavam localizadas em Betim e Contagem e produziam peças para as duas grifes.

Segundo os auditores, os trabalhadores recebiam entre R$ 20 e R$ 80 por peça e, em alguns casos, cerca de R$ 1.200 mensais, valor abaixo do salário mínimo. As jornadas ultrapassariam 12 horas diárias, em ambientes sem ventilação adequada, com instalações elétricas precárias e ausência de condições básicas de higiene.

Além disso, fiscais relataram a presença de crianças vivendo nos mesmos imóveis onde funcionavam as oficinas. Registros apontam situações alarmantes, como bebês dormindo em meio a materiais de costura e utensílios instalados de forma inadequada, como bebedouros posicionados sobre vasos sanitários.

De acordo com o MTE, as marcas seriam responsáveis pelas condições encontradas, já que mantinham relação direta com as oficinas. Relatórios indicam que representantes das empresas visitavam os locais regularmente para acompanhar a produção, entregar insumos e monitorar pedidos.

As duas companhias negam responsabilidade direta. Em nota, afirmaram que mantinham contratos de natureza mercantil com as oficinas e que não tinham ingerência sobre a gestão de pessoal. Ambas informaram ainda que suspenderam os contratos após tomarem conhecimento das irregularidades.

Os casos seguem em análise administrativa. Se as autuações forem mantidas, as empresas podem ser incluídas na chamada lista suja do trabalho escravo.

As marcas ganharam visibilidade nacional com apoio de influenciadoras digitais, como Thassia Naves, que possui milhões de seguidores nas redes sociais. Outras criadoras de conteúdo também divulgaram peças das grifes, mas afirmaram não ter conhecimento prévio das irregularidades.

Especialistas destacam que o caso reacende o debate sobre responsabilidade na cadeia produtiva da moda. Para a procuradora do trabalho Tatiana Leal Bivar Simonetti, é fundamental que empresas e influenciadores assumam compromisso com práticas éticas.

Não importa se o serviço é terceirizado. A responsabilidade é de toda a cadeia produtiva, avaliam especialistas do setor.

Levantamento do próprio MTE aponta que as marcas utilizavam dezenas de oficinas terceirizadas, muitas delas administradas por imigrantes em situação de vulnerabilidade. Para auditores, esse modelo favorece a precarização das relações de trabalho.

 

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