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Nova espécie de rã-de-vidro é identificada no Cerrado de Goiás

Vitreorana micaelae tem pouco mais de 2 centímetros, vive em matas próximas a riachos e é a segunda espécie do gênero conhecida exclusivamente no bioma

24/09/2026 às 10h30
Por: Cristiane Cirilo
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Afonso Meneses/Divulgação
Afonso Meneses/Divulgação

Uma pequena rã esverdeada e quase transparente encontrada em áreas de Cerrado, em Luziânia (GO), foi reconhecida como uma nova espécie pela ciência. Batizada de Vitreorana micaelae, a espécie foi descrita por pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), da Universidade Federal de Goiás (UFG) e da Universidade de Brasília (UnB).

O animal foi localizado em matas de galeria próximas a pequenos riachos que alimentam o rio Corumbá. Apesar da semelhança com outras rãs-de-vidro, o grupo liderado pelo biólogo Wilian Vaz-Silva decidiu investigar os indivíduos depois de registrar também o canto dos animais.

A confirmação de que se tratava de uma espécie ainda desconhecida foi possível a partir da combinação de diferentes análises, incluindo características físicas, comportamento vocal, genética molecular e observações em campo.

A Vitreorana micaelae é a 11ª espécie conhecida do gênero. Apenas quatro espécies de Vitreorana ocorrem no Brasil, e a recém-descrita é a segunda conhecida até agora como exclusiva do Cerrado.

Os pesquisadores identificaram diferenças em relação às espécies já conhecidas, incluindo características genéticas, o canto, a pigmentação do corpo, o formato da íris e aspectos da morfologia. O canto, por exemplo, apresenta menos notas do que o de outras espécies do grupo.

A dificuldade para encontrar o animal também ajuda a explicar por que ele permaneceu desconhecido por tanto tempo. Com pouco mais de 2 centímetros, a rã vive no alto das árvores, geralmente em áreas inclinadas próximas aos riachos, e costuma vocalizar apenas durante períodos de chuva intensa.

Durante o estudo, os pesquisadores também observaram características do processo reprodutivo. A fêmea deposita os ovos sobre folhas de árvores, enquanto o macho permanece próximo. Depois que os ovos eclodem, os girinos caem na água e se enterram no sedimento dos riachos.

A espécie já havia sido registrada na região em 2013, mas os animais foram identificados na época como Vitreorana eurygnatha, uma espécie conhecida. A nova análise mostrou que se tratava, na verdade, de uma espécie diferente.

O estudo que formalizou a descoberta foi publicado em setembro na revista científica ZooKeys. Os pesquisadores recomendam que a Vitreorana micaelae seja inicialmente classificada como “Dados Insuficientes” (DD) no sistema da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), já que ainda não existem informações suficientes sobre o tamanho da população e as ameaças que enfrenta.

Até o momento, foram identificadas três localidades com ocorrência da espécie no Cerrado. Uma delas ainda não foi divulgada em estudo científico.

O nome Vitreorana micaelae é uma homenagem à bióloga Micaela de Jolepian L. Vaz, esposa de Wilian Vaz-Silva, um dos pesquisadores envolvidos na descrição da espécie.

Apesar da descoberta, os cientistas alertam para os riscos que podem afetar o habitat da pequena rã. Alterações no regime de chuvas provocadas pelas mudanças climáticas, desmatamento e represamento de rios para a construção de pequenas hidrelétricas estão entre as ameaças apontadas.

Como a espécie depende de riachos e de áreas de vegetação próximas à água, alterações nesses ambientes podem comprometer sua sobrevivência. Para os pesquisadores, o caso também mostra que o Cerrado ainda guarda espécies que podem desaparecer antes mesmo de serem conhecidas pela ciência.

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