
A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) divulgou um pedido público de desculpas pelo uso de corpos de pacientes do Hospital Colônia de Barbacena, no Campo das Vertentes, ao longo do século 20, para fins de estudo em aulas de anatomia.
Segundo a instituição, os corpos de pessoas que morreram no hospital (muitas delas em situação de vulnerabilidade e abandono) foram utilizados por faculdades de medicina, incluindo a própria UFMG, em um período em que não havia as mesmas regras éticas atuais para o uso de material humano em ensino.
O Hospital Colônia de Barbacena, fundado em 1903, ficou conhecido por um dos maiores episódios de violação de direitos humanos no país. Estima-se que cerca de 60 mil pessoas tenham morrido no local ao longo de sua história.
De acordo com levantamentos citados pela universidade, parte desses corpos foi enviada para instituições de ensino médico entre as décadas de 1960 e 1980, sem consentimento das famílias.
Em nota, a UFMG afirmou lamentar profundamente as práticas adotadas no passado e destacou o compromisso atual com a ética, os direitos humanos e a memória das vítimas.
“Em respeito ao direito à verdade, à justiça e à memória, a Universidade Federal de Minas Gerais pede desculpas à sociedade brasileira por essa prática que aviltou os corpos e a dignidade de pessoas falecidas no Hospital Colônia de Barbacena”, diz o trecho da declaração.
A instituição também reconheceu que a ciência não é neutra e pode, em determinados contextos históricos, ter contribuído para violações de direitos.
A UFMG informou que, em acordo com o Ministério Público Federal (MPF), deve adotar medidas de reparação, como a criação de espaços de memória na Faculdade de Medicina e a inclusão do tema em disciplinas acadêmicas.
Também está prevista a restauração de registros históricos relacionados aos corpos provenientes do hospital.
Além disso, desde 1999 a universidade mantém um programa de doação voluntária de corpos para estudos anatômicos, baseado em consentimento formal.
O caso do Hospital Colônia de Barbacena ficou conhecido como um dos capítulos mais marcantes da história da saúde mental no Brasil. Relatos apontam que apenas uma pequena parte dos internados tinha diagnóstico psiquiátrico, enquanto muitos eram pessoas marginalizadas socialmente.
O episódio é frequentemente citado em estudos e obras como “Holocausto Brasileiro”, da jornalista Daniela Arbex, que denuncia as condições do hospital ao longo do século passado.
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