A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) anunciou a suspensão temporária das cirurgias ortopédicas eletivas na rede do Sistema Único de Saúde (SUS-BH) a partir desta quarta-feira (22). A medida, válida inicialmente por duas semanas, pode ser prorrogada e justificada pela Secretaria Municipal de Saúde como necessidade diante da “alta demanda por leitos hospitalares ortopédicos de urgência”. O objetivo é priorizar atendimentos de casos graves e emergenciais até o dia 5 de fevereiro.
O contexto agravou a pressão sobre o sistema de saúde da capital, que já enfrentou desafios históricos. A suspensão coincide com o fechamento do bloco cirúrgico do Hospital Maria Amélia Lins (HMAL), na região Centro-Sul, no fim de dezembro, afetando a realização de procedimentos em uma unidade que era referência para vítimas de acidentes de trânsito. Segundo o ofício emitido pela Regulação do Acesso Hospitalar, a fila por leitos ortopédicos de urgência já atinge cerca de 100 pacientes por dia, totalizando um volume estimado de 1.400 atendimentos necessários ao longo de duas semanas.
De acordo com a PBH, a decisão faz parte de um plano de contingência já utilizado em momentos de maior pressão sobre o sistema, como ocorreu durante a pandemia de covid-19. Porém, especialistas apontam um cenário preocupante. O médico Jackson Machado Pinto, ex-secretário de Saúde de BH, afirma que a interrupção de cirurgias eletivas revela um grave desequilíbrio na assistência hospitalar. “A Secretaria de Saúde precisa avaliar um cenário de gravidade significativa para tomar esse tipo de decisão. Durante a pandemia, tivemos que suspender todos os blocos cirúrgicos e transformá-los em UTIs, devido ao alto número de internações e à demanda por respiradores. Portanto, algo certamente está em falta, seja insumo ou profissional”, destacou.
A situação do HMAL contribuiu significativamente para a sobrecarga. Desde a desativação do bloco operatório, os profissionais foram transferidos para o Hospital João XXIII, que já atende com alta demanda por atendimentos de urgência.
A suspensão também evidenciou desafios acumulados ao longo dos anos. Neuza Freitas, diretora do Sindicato dos Trabalhadores da Saúde de Minas Gerais (Sind-Saúde MG), criticou o fechamento de serviços hospitalares na capital, como o do Hospital Ortopédico do Galba Veloso, em 2018. Segundo ela, a fila de cirurgias eletivas já era extensa, e a suspensão agravava a situação. “Em saúde, não se fecha serviços, amplia-se. O que vemos é a precarização do atendimento e prejuízo ao usuário final”, afirmou.
Hospitais da rede SUS-BH, como o Baleia, Clínicas (UFMG) e Evangélico, confirmaram ter recebido o ofício. O Hospital Evangélico informou que ampliará a oferta de cirurgias de urgência, enquanto o Baleia declarou estar ciente da determinação. Já o Hospital das Clínicas afirmou não ter recebido o documento até o momento.
A Prefeitura de Belo Horizonte reiterou que a medida busca atender, com maior agilidade, pacientes em situações graves, como fraturas expostas e politraumatismos, especialmente em decorrência de acidentes de trânsito e quedas. Embora a previsão seja de retomada dos procedimentos eleitos em fevereiro, especialistas temem que a crise no sistema se prolonga e prejudica ainda mais os usuários do SUS na capital mineira.
Fonte: O Tempo
Foto: Videopress Produtora
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