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Pediatras alertam para riscos de brinquedos com inteligência artificial para crianças

Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda atenção à coleta de dados, à privacidade e ao risco de dependência emocional em produtos que simulam amizade e afeto

22/10/2026 às 09h02
Por: Cristiane Cirilo
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Reprodução/TPIN
Reprodução/TPIN

Brinquedos capazes de conversar, memorizar preferências e responder com frases de carinho estão entre as novas aplicações da inteligência artificial (IA) no universo infantil. Apesar da proposta de tornar as brincadeiras mais interativas, esses produtos acendem um alerta entre especialistas sobre a privacidade, a segurança e os possíveis efeitos no desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes.

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) publicou orientações para ajudar pais e responsáveis a avaliar os riscos antes de comprar brinquedos equipados com essa tecnologia. A entidade recomenda atenção especial aos produtos que utilizam inteligência artificial generativa, mantêm conversas abertas, coletam informações pessoais ou simulam relações de amizade e apoio emocional.

Segundo a SBP, esses sistemas podem reconhecer voz e imagem, armazenar informações e adaptar as respostas conforme as interações. Quando conectados à internet, alguns brinquedos também podem utilizar microfones e câmeras, além de mecanismos de personalização que incentivam a continuidade do uso.

A preocupação é que a aparência afetuosa dessas interações leve a criança a interpretar o sistema como uma pessoa capaz de sentir emoções ou oferecer cuidados reais.

Brinquedos podem coletar dados e estimular vínculos emocionais

A SBP destaca que a inteligência artificial pode utilizar uma linguagem empática, mas não possui sentimentos humanos. Para as crianças, especialmente as mais novas, essa diferença pode não ser evidente.

Uma revisão publicada na revista científica Pediatrics, citada pela entidade, aponta preocupações com a possibilidade de crianças desenvolverem percepções equivocadas sobre sistemas de IA, tratando-os como amigos ou cuidadores.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) também alerta para os chamados AI companions, ou companheiros de inteligência artificial. São sistemas desenvolvidos para manter conversas e simular relacionamentos, que podem ser incorporados a brinquedos e outros produtos utilizados por crianças e adolescentes.

Além da dimensão emocional, os pediatras chamam a atenção para o tratamento de dados pessoais. Dependendo do funcionamento do produto, informações sobre voz, imagem, preferências e hábitos da criança podem ser registradas, armazenadas ou compartilhadas.

Por isso, a entidade recomenda que os responsáveis verifiquem quais informações são coletadas, para que são utilizadas, onde ficam armazenadas e se podem ser excluídas.

O que os pais devem avaliar antes da compra

A recomendação dos pediatras é avaliar se a inteligência artificial oferece algum benefício concreto à brincadeira e se os mecanismos de proteção estão descritos de forma clara pelo fabricante.

Entre os pontos que merecem atenção estão a classificação etária, a necessidade de conexão com a internet, a presença de câmera e microfone e a possibilidade de a criança acessar conteúdos inadequados.

A SBP também orienta os responsáveis a observar se o brinquedo incentiva a participação ativa da criança ou se executa praticamente todas as atividades por ela. Outro aspecto importante é verificar se o produto estimula o uso prolongado, oferece compras adicionais ou utiliza publicidade direcionada.

A entidade recomenda cautela principalmente quando o brinquedo simula amizade, afeto, cuidado ou apoio emocional sem deixar claro que a interação ocorre com um sistema artificial.

Quando o fabricante não oferece informações transparentes sobre o funcionamento e a proteção dos dados, a orientação é escolher outro produto, preferencialmente sem esses recursos.

Tempo de tela e desenvolvimento infantil

Os efeitos de longo prazo dessas novas formas de interação ainda não são suficientemente conhecidos, segundo o alerta da SBP. A entidade considera que essa incerteza reforça a necessidade de proteção durante a infância e a adolescência.

Os pediatras recomendam que os responsáveis observem o espaço ocupado pelo brinquedo na rotina da criança, especialmente em relação ao sono, à atividade física, à leitura, às brincadeiras livres, ao contato com a natureza e à convivência familiar.

A preocupação não se limita ao tempo de utilização, mas também à qualidade da experiência e à forma como a tecnologia é apresentada. A criança precisa compreender, de acordo com sua idade, que está interagindo com uma inteligência artificial, e não com uma pessoa.

O que fazer em caso de problemas com o brinquedo

A SBP ressalta que fabricantes e fornecedores devem informar sobre os riscos do produto e as medidas de segurança, incluindo as relacionadas à privacidade e à proteção de dados.

Se houver coleta de informações sem transparência, exposição a conteúdo inadequado ou falhas de segurança, os responsáveis podem solicitar esclarecimentos ao fornecedor e, conforme o caso, pedir correção ou exclusão dos dados da criança.

Também é possível registrar reclamações no Procon, na plataforma consumidor.gov.br ou junto à Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD).

Nas compras realizadas pela internet ou fora de estabelecimentos comerciais, o consumidor tem, em regra, sete dias a partir da assinatura do contrato ou do recebimento do produto para exercer o direito de arrependimento, conforme previsto no Código de Defesa do Consumidor.

A orientação central dos pediatras é que os adultos não avaliem apenas o que o brinquedo consegue fazer, mas também quais informações ele coleta, como influencia o comportamento infantil e quais garantias oferece para proteger seus usuários.

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