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Crise financeira leva ONU a cortar mais de 10 mil empregos e ameaça assistência a refugiados

Redução de recursos e pressão dos Estados Unidos colocam programas humanitários em risco; no Brasil, ACNUR recebeu apenas 22% do orçamento necessário para 2026

10/10/2026 às 11h18
Por: João Vitor Viana
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UN Photo | Eskinder Dabebe
UN Photo | Eskinder Dabebe

A Organização das Nações Unidas (ONU) enfrenta uma grave crise financeira que já provocou o corte de mais de 10 mil postos de trabalho e ameaça a continuidade de programas humanitários em diferentes países. A redução de recursos afeta especialmente ações de assistência a refugiados, crianças e populações em situação de vulnerabilidade. O cenário é agravado pela diminuição de contribuições internacionais e pela pressão dos Estados Unidos por mudanças na estrutura da organização.

Os cortes atingiram 21 das 41 agências e organismos da ONU em 2025. Segundo dados do Conselho de Chefes Executivos das Nações Unidas, o sistema contava com 130.948 postos de trabalho em 2024. No ano seguinte, o número caiu para 120.176, uma redução de aproximadamente 8%. Para 2026, foram aprovadas a extinção de outros 2,9 mil cargos, além da adoção de medidas como demissões voluntárias e aposentadorias antecipadas.

Entre as entidades mais afetadas está o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), responsável pela proteção e assistência a pessoas forçadas a deixar seus países. Em 2025, a agência arrecadou menos de 40% dos US$ 10,6 bilhões solicitados para atender quase 130 milhões de pessoas em todo o mundo. Como consequência, cortou um terço de sua força de trabalho, fechou escritórios em 140 localidades e encerrou operações em 15 países. A estimativa é que 8,3 milhões de pessoas possam deixar de receber assistência vital em 2026.

A situação também preocupa no Brasil. Até o fim de agosto, o ACNUR havia recebido apenas 22% dos recursos necessários para manter suas operações durante 2026. No ano anterior, 40% da força de trabalho da agência e de organizações parceiras financiadas por ela no país precisou ser cortada. Segundo o representante do organismo no Brasil, Davide Torzilli, a falta de recursos já impediu que algumas pessoas acessassem serviços anteriormente disponíveis, enquanto outras passaram a receber atendimento limitado ou direcionado conforme critérios de vulnerabilidade.

A escassez ocorre em um momento de grande demanda por proteção internacional. De acordo com o ACNUR, até 500 pessoas chegam diariamente ao Brasil por Roraima para solicitar proteção. A redução dos recursos ameaça o acesso de famílias refugiadas a abrigo, alimentação e itens básicos. A importância da assistência é ilustrada pela história de Delmany Rodrigues, que chegou ao Rio de Janeiro ainda criança, após deixar Angola com a mãe e o irmão em razão da guerra civil. A família recebeu apoio humanitário, auxílio para moradia, material escolar e acesso a oportunidades de formação profissional.

A crise financeira da ONU está relacionada, entre outros fatores, ao atraso no pagamento das contribuições obrigatórias dos países-membros e à redução de doações voluntárias. Nos últimos dois anos, os Estados deixaram de pagar US$ 1,6 bilhão. Os Estados Unidos são o maior devedor individual, embora também sejam o principal contribuinte do orçamento regular da organização. Em setembro, o governo americano realizou pagamentos de US$ 725 milhões referentes às contribuições regulares e de US$ 102 milhões para missões de paz. Ainda assim, no mês passado, a ONU informou que os americanos deviam US$ 1,3 bilhão em contribuições anuais, sem incluir os valores das missões de paz.

O governo do presidente Donald Trump tem condicionado novos repasses à implementação de reformas e afirma que pretende impedir que recursos americanos financiem organizações consideradas contrárias à política externa dos Estados Unidos. Para o especialista em Relações Internacionais Uriã Fancelli, essa estratégia representa uma forma de “chantagem” contra a ONU. Segundo ele, além de pressionar por uma estrutura menor e com menos gastos, Trump busca enfraquecer o multilateralismo e ampliar o espaço para iniciativas internacionais conduzidas diretamente pelos Estados Unidos.

Para 2026, o orçamento do Secretariado da ONU foi reduzido em 7%, para US$ 3,45 bilhões. A distribuição das contribuições considera principalmente a capacidade econômica de cada país. Os Estados Unidos respondem por cerca de 22% do orçamento regular, seguidos pela China, com 20%. O Brasil, que participa com 1,4%, quitou em março sua contribuição anual de US$ 44,8 milhões. Até 1º de outubro, 143 dos 193 países-membros haviam realizado os pagamentos previstos para o ano.

Apesar das dificuldades enfrentadas pelo ACNUR, os investimentos em iniciativas da ONU no Brasil cresceram de 2024 para 2025. No ano passado, foram aplicados US$ 213 milhões em ações no país, alta de 37%, com a implementação de 338 iniciativas nas áreas de saúde, combate à pobreza, assistência social e desenvolvimento sustentável. O governo federal destinou US$ 106,1 milhões para projetos ligados à Agenda 2030, enquanto outros países e organismos internacionais também contribuíram. Mesmo com esses investimentos, a insuficiência de recursos para a assistência a refugiados mantém o alerta sobre a continuidade dos atendimentos e a proteção das pessoas em situação de maior vulnerabilidade.

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