
A Semana Mundial do Espaço, celebrada de 4 a 10 de outubro, coloca em evidência neste ano uma transformação que também alcança o Brasil: a expansão do acesso ao espaço por meio de novos veículos de lançamento, empresas privadas, universidades e projetos educacionais.
O tema escolhido para 2026 é “Revolução dos Foguetes”. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a expressão representa a mudança no setor espacial, que deixou de ser concentrado em poucos programas governamentais e passou a envolver empresas comerciais, startups, universidades e novos atores nacionais.
No Brasil, um dos principais pontos dessa transformação é o Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão. Em agosto, a estrutura recebeu o primeiro voo de teste do foguete suborbital SEBIT, desenvolvido pela empresa sul-coreana Innospace. O voo foi encerrado antecipadamente depois que a Força Aérea Brasileira (FAB) identificou um desvio de trajetória e acionou o sistema de terminação de voo. Não houve feridos nem danos materiais.
A atividade faz parte de um movimento mais amplo para ampliar o uso comercial e tecnológico da estrutura de Alcântara. Segundo a Agência Espacial Brasileira (AEB), a Innospace mantém previsão de realizar em novembro uma nova missão com o foguete HANBIT-Nano. A data definitiva depende da conclusão das etapas técnicas, operacionais e regulatórias, além das condições meteorológicas e dos requisitos de segurança.
O Centro Espacial de Alcântara é tratado pelo governo como uma infraestrutura estratégica para o desenvolvimento do setor. O Programa de Desenvolvimento Integrado para o Centro Espacial de Alcântara (PDI-CEA), criado em 2020, prevê a coordenação de iniciativas federais relacionadas ao desenvolvimento da estrutura e considera a localização próxima à Linha do Equador uma das vantagens para operações de lançamento.
A participação brasileira no setor espacial não se limita aos centros de lançamento. Um dos projetos recentes envolve estudantes de escolas públicas.
Por meio do projeto “AEB – Escola em Órbita”, alunos participaram de atividades práticas relacionadas a missões espaciais e ajudaram a construir os satélites EduSat-2 e EduSat-3. Os equipamentos foram enviados ao espaço no início de outubro, durante a missão Transporter-18, da SpaceX, lançada a partir da Base da Força Espacial de Vandenberg, nos Estados Unidos.
A iniciativa é realizada pela Ideia Space em parceria com a Agência Espacial Brasileira e busca levar conhecimentos relacionados à construção de satélites para escolas públicas.
O projeto faz parte de uma estratégia mais ampla de formação de profissionais para o setor espacial. Dados do Observatório do Setor Espacial Brasileiro, mantido pela AEB, indicam que a plataforma AEB Escola já reúne mais de 53 mil alunos.
Outra frente de atuação está nas pesquisas realizadas a partir dos centros de lançamento brasileiros.
No Rio Grande do Norte, a Operação Potiguar 2 utilizou o Centro de Lançamento da Barreira do Inferno, em Parnamirim, para testar uma plataforma suborbital de microgravidade. A missão foi planejada para qualificar um sistema destinado a futuras pesquisas científicas em condições de microgravidade.
Esse tipo de experimento permite estudar fenômenos em condições diferentes das encontradas na superfície terrestre e pode ter aplicações em áreas como materiais, biologia, medicamentos e agricultura.
A agenda espacial brasileira também inclui experimentos relacionados à chamada agricultura espacial. Entre as atividades previstas está o envio de uma carga com microrganismos capazes de promover o crescimento de plantas, dentro da Rede Space Farming Brazil.
A expansão do setor também aparece no número de empresas e tecnologias mapeadas pela AEB.
De acordo com o portal oficial da agência dedicado à indústria espacial brasileira, existem atualmente 88 organizações catalogadas no ecossistema espacial, distribuídas por 38 cidades de 13 estados. O levantamento também registra 18 oportunidades ativas, entre editais e chamadas, e oito empresas com o selo do Programa Espacial Brasileiro.
O Observatório do Setor Espacial Brasileiro estima ainda cerca de R$ 90 milhões planejados para o setor em 2026. O órgão contabiliza mais de 3,4 mil lançamentos realizados em território brasileiro, 11 missões em execução no Programa de Subvenção e Apoio às Missões Espaciais (ProSAME) e mais de 25 propostas em análise.
O mesmo levantamento aponta mais de mil tecnologias espaciais e 155 patentes mapeadas, além de 31 objetos espaciais brasileiros registrados junto ao Escritório das Nações Unidas para Assuntos do Espaço Sideral (UNOOSA).
Outro movimento recente ocorreu dentro da própria Agência Espacial Brasileira.
No início de outubro, a AEB instituiu uma Política de Inovação com diretrizes para pesquisa, desenvolvimento tecnológico e inovação no setor espacial. A medida prevê articulação entre órgãos públicos, empresas e instituições de ciência e tecnologia, além de ações voltadas à qualificação de profissionais.
Entre os princípios estabelecidos estão a redução de dependências tecnológicas externas, a sustentabilidade ambiental e o fortalecimento da cooperação nacional e internacional.
O conjunto de iniciativas mostra que a participação brasileira no setor espacial ocorre em diferentes áreas, desde a infraestrutura de lançamento e a fabricação de satélites até a pesquisa científica, a educação e o desenvolvimento de empresas.
A Semana Mundial do Espaço termina em 10 de outubro, data que também marca a entrada em vigor, em 1967, do Tratado sobre os Princípios que Regem as Atividades dos Estados na Exploração e Uso Pacífico do Espaço Exterior. A celebração foi criada pela ONU em 1999 para destacar a contribuição da ciência e da tecnologia espaciais para a sociedade.
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