
O endividamento provocado pelas apostas online pode seguir um ciclo que começa com perdas aparentemente pequenas e termina comprometendo a renda, o patrimônio e até as relações familiares. Em busca de recuperar o dinheiro perdido, o apostador pode aumentar os valores das apostas e recorrer a empréstimos ou outras formas de crédito para continuar jogando.
Esse processo contribuiu para um cenário de perdas bilionárias no país. Apenas em 2025, as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões com as apostas, segundo dados do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz). O cálculo considera a diferença entre o dinheiro colocado nas plataformas e o valor devolvido aos usuários em prêmios. No mesmo período, as bets movimentaram quase R$ 351 bilhões em transações via Pix.
O endividamento pode se aprofundar quando o apostador passa a tentar recuperar o dinheiro perdido. A lógica é aumentar o valor das apostas para compensar prejuízos anteriores, mas novas perdas ampliam a necessidade de dinheiro e podem levar ao uso de cartão, empréstimos e outras formas de crédito.
Na prática, o problema deixa de ser apenas o dinheiro destinado às apostas e passa a atingir recursos que seriam usados para despesas do dia a dia. Contas, compras, aluguel e outras obrigações podem ser comprometidos quando parte da renda é direcionada para tentar recuperar valores perdidos.
O avanço das dívidas também pode levar à venda de bens. Na reportagem da Agência Brasil, há relatos de pessoas que perderam patrimônio, emprego e condições de manter a própria moradia depois de anos envolvidas com apostas. Em situações mais graves, o endividamento chegou a envolver empréstimos com agiotas.
O problema não se limita aos adultos. Uma pesquisa com 1.912 estudantes de 191 escolas apontou que 20,4% dos alunos dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio disseram ter feito apostas online no último ano. O levantamento também registrou relatos de apostas entre estudantes a partir dos 11 anos.
As apostas online foram autorizadas no Brasil em 2018, mas só passaram a ter regulamentação específica em dezembro de 2023. Durante esse período, as plataformas funcionaram por anos sem as regras que posteriormente passaram a estabelecer medidas de proteção aos usuários e restrições para a atividade.
Entre as regras criadas estavam medidas para identificar e restringir usuários com comportamento compulsivo, além de alertas sobre os riscos das apostas. Segundo a reportagem, porém, houve relatos de que mecanismos de proteção não eram aplicados de maneira suficiente.
O acesso constante às plataformas também favoreceu a continuidade do ciclo. Diferentemente dos jogos presenciais, as apostas podiam ser feitas pelo celular, praticamente a qualquer hora, facilitando novas tentativas depois de uma perda.
O impacto financeiro chegou a se combinar com problemas de saúde mental. O aumento da dependência em apostas levou à ampliação da procura por atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS), que passou a reforçar o teleatendimento e o acompanhamento de pessoas com problemas relacionados aos jogos.
Em setembro de 2026, o governo federal editou uma medida provisória que determinou o fim das operações das bets no país. A medida também estabeleceu regras para a retirada dos valores que ainda estavam nas contas dos apostadores.
A trajetória do endividamento mostra como o prejuízo pode crescer de forma gradual: começa com o dinheiro perdido nas apostas, passa pela tentativa de recuperar os valores, pode avançar para o uso de crédito e empréstimos e, em situações mais graves, comprometer patrimônio, renda e condições básicas de vida.
Mín. 21° Máx. 33°