
O Oceano Pacífico abriu um buraco perto da casa do ator Nicolas Cage, em Malibu, e causou estragos em propriedades à beira-mar ao longo do litoral sul da Califórnia neste verão. Na cidade de Dana Point, as ondas destruíram uma casa na Beach Road e obrigaram a prefeitura a desocupar ou restringir a ocupação de outras 16 residências.
Os danos foram provocados por uma série de ciclones e furacões do Pacífico Oriental, intensificados pelo fenômeno climático El Niño. Embora os furacões não tenham atingido diretamente o continente californiano, eles geraram ondas gigantes que se chocaram contra a costa, arrancando a areia das praias e alterando um litoral que faz parte da identidade do estado tanto quanto Hollywood ou o Vale do Silício.
Segundo Patrick Barnard, diretor de pesquisa do Centro de Resiliência Climática Costeira da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, tudo indica que o próximo inverno será especialmente arriscado, com os efeitos do fenômeno amplificados pelas mudanças climáticas. Especialistas apontam que ondas ainda mais violentas podem chegar nos próximos meses, quando ciclos climáticos naturais podem coincidir com marés mais altas.
Diante do cenário, a Califórnia decretou preventivamente, nesta semana, estado de emergência para ajudar a mobilizar equipes de resgate e de primeiros socorros, em preparação para novas turbulências ligadas ao El Niño, que surgiu em junho e deve atingir seus maiores efeitos até o fim de 2026 e o início de 2027.
Na sexta-feira (25), outro furacão, batizado de Polo, se formou na costa do Pacífico mexicano e pode enviar mais ondas para o norte. As autoridades já cancelaram a primeira edição do Ocean Way Festival, marcada para este fim de semana em Santa Mônica, depois que ondas e o escoamento de um furacão anterior corroeram grande parte do local do evento.
Por que o fenômeno eleva tanto o nível do mar?
O El Niño ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico tropical central e oriental ficam excepcionalmente quentes, alterando a circulação atmosférica e o clima em todo o mundo. No sul da Califórnia, o nível do mar já subiu entre 20 e 30 centímetros ao longo do último século, e um El Niño forte poderia elevá-lo temporariamente em mais 15 a 30 centímetros.
Soma-se a isso a chamada onda de Kelvin subaquática, fenômeno relacionado ao El Niño que também pode elevar temporariamente o nível do mar. A primeira grande onda do atual ciclo deve chegar à Califórnia no início de outubro, segundo o oceanógrafo Michael Jacox, da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (Noaa).
Esses efeitos ainda podem coincidir com marés-reinas sazonalmente extremas, ligadas ao ciclo nodal lunar de 18,6 anos, além de tempestades intensas conhecidas como "rios atmosféricos", que costumam inundar áreas costeiras e corroer penhascos.
Litoral que sempre resistiu começa a mostrar sinais de fragilidade
Diferente de áreas costeiras baixas em outras partes do mundo, o litoral geralmente íngreme da Califórnia até agora tinha poupado boa parte dos moradores das inundações crônicas observadas alhures.
Mas em Carlsbad, cidade de 112 mil habitantes a cerca de 56 km ao norte de San Diego, a areia desapareceu quase da noite para o dia na praia de Tamarack, point turístico que ajuda a arrecadar 14% do orçamento operacional do município com impostos sobre quartos de hotel.
Segundo o geomorfologista costeiro Adam Young, do Instituto Scripps de Oceanografia da UC San Diego, que visitou recentemente o local, é possível hoje escalar pedras onde antes havia praia arenosa; mais ao sul, o oceano chegou a engolir a areia por completo, invadindo um estacionamento que antes ficava a poucos passos do mar.
Os surfistas ainda lotam Tamarack, mas o que antes era uma praia cheia de turistas e moradores agora reúne apenas alguns visitantes disputando o pouco de areia que sobrou. Após uma sessão matinal, o surfista Alex Stott resumiu a sensação de quem frequenta o local: para ele, a natureza pode levar a praia inteira embora rapidamente, se quiser, caso nada seja feito para conter o processo.
Mín. 19° Máx. 28°